Quem mandou eu encarnar... Se eu soubesse que seria tão trabalhoso, teria feito metade nas vidas passadas. Escute bem o meu "ai...", lá no fundo. Está lá. Os anjos não são mansos e nunca foram, e essas vozes GRITAM - bem nos meus ouvidos. E eu venho falhando nos testes, e a música é como um alívio, uma água que mata a sede dos meus gritos. Gasta-se muita saliva neste corpo, nessa vida. Antes fosse beijando (saudade de beijar o amor com amor). Mas não tem trégua. Anjinhos bonzinhos? Com trompetas, anunciando as boas novas? Anunciadores que são/somos? Contestam(os). Quebram(os) as estruturas anteriores, deixando as ruínas pros outros. Suuuuper legais. Esses são os meus irmãos que ficaram do lado de lá. Trazemos a espada da justiça, e o meu trabalho tem a ver com isso, só que eu ainda não sei o que é. Esse ofício que vem com o meu dharma. Ele vem da esfera dos anjos, e eu achei que fosse a música. (...) -Uma pausa.- E, Alexandra, não mais desculpas. E não mais pedir ou agradecer amor, que é derrota. -Outra pausa.- Ver o anjo no outro é ver o anjo de todos. Você precisa trabalhar a dois, mas veio com a Estrela Alfa que antagoniza o deus da guerra (!). E ainda colocam em você um nome de guerreiro. Queria eu ser uma doce garotinha, leve e regozijante, brincando de subir em árvores pra comer os frutos, correndo atrás das borboletas até completar treze anos, e depois poder namorar de mãos dadas, ser cortejada, namorada. Não dessa vez. Mas subestime o meu 1,63m. Subestime o meu sexo, a minha inteligência, subestime qualquer aspecto do meu ser. Então você reconhece a Estrela Alfa. Mas não pretendo assustar, meu objetivo não é ficar contra você. Na verdade, eu preciso de muita paciência pois preciso virar você, vestir a sua pele, ver com os seus olhos. Ver o anjo em você é ver o anjo de todos. E eu preciso ver o meu próprio.
sexta-feira, dezembro 19, 2008
quinta-feira, dezembro 18, 2008
continuous

I know it's my fault it's my fault i know i have developed into something not likeable. i know it's my eyes that change, its my eyes that change when i sing from the hurt you made, i'm different. i'm not the same as yesterday, but it's even better than tomorrow cause my chords had just made me built up in confidence and now i can sing from pain, real pain, real noise in my head your words caused me to be so low in confidence, all this missing, all this not knowing, all your taking too long to decide and all my waiting. it seems like my fault, how can it not be when i know everything will always come undone for me because i probably do that, when i know i can only love the death of myself, when i know this, when i know this and i smell my own death, then i jump in any situations, like with you. love with you is death for me, certain. i know i'm a walking target for my own poisonous tail. you are like a silly twisted little wood i borrowed from the shadows of that valley. you are worth nothing, but to me you were it all. the hope for a spark, the start of a fire, the hope to keep warm in this freezing hell of emotions called world.
i hoped for it all, it all came undone before i could start that fire, because my own fire overshadowed your spark. i was a flame and you were air; you are gone and i am coming down on ashes. the floor, stick to the floor... not forgeting to breath, do not forget to breath, breath in and out, listen to your heart beat, listen to your inner cry. the hanged cat i dreamt about it was not a real cat; it was me. chocking on my own tears, the rope was too tight and i was so angry at myself like i am now, but i was trying to set it free. and, eventually i can, so how can i keep going out on swimming with sharks? --like everyday is a different fishing-- all i see is tails and bones (the bate, my mouth, the hook.) oops, this one used to be mine. just ashes now. there is no now. just yesterdays. of course there is no tomorrows, and of course there is not me
i hoped for it all, it all came undone before i could start that fire, because my own fire overshadowed your spark. i was a flame and you were air; you are gone and i am coming down on ashes. the floor, stick to the floor... not forgeting to breath, do not forget to breath, breath in and out, listen to your heart beat, listen to your inner cry. the hanged cat i dreamt about it was not a real cat; it was me. chocking on my own tears, the rope was too tight and i was so angry at myself like i am now, but i was trying to set it free. and, eventually i can, so how can i keep going out on swimming with sharks? --like everyday is a different fishing-- all i see is tails and bones (the bate, my mouth, the hook.) oops, this one used to be mine. just ashes now. there is no now. just yesterdays. of course there is no tomorrows, and of course there is not me
domingo, dezembro 14, 2008
Eu sou o cano da arma
Não sou a bala que perfura o alvo, nem a pólvora que se espalha pela roupa. Não sou os dejetos amorfos que caem pelo chão, cheios de sangue, nem o próprio sangue em si, que escorre como cera líquida. Não sou o calor do atrito, não sou o gatilho, não sou o dedo que dispara o projétil, não sou nem a própria raiva do ser, inquietude do dedo. Não sou um fim e nem um motivo. Não sou um objetivo. Não sou feita de algodão, nem de papel, e não derreto com a chuva. Poucas coisas podem me deter. Mas nada fica no meu caminho. Eu sou o canal que liga o princípio ao fim, mas dentro de mim, é apenas oco e escuro. Antes, eu sou fria. Depois, quente. Eu sou o canal que leva a mensagem, seja na esportiva, seja na brincadeira que acaba em desastre, seja na vida ou na morte, no erro ou no acerto. Dentro de mim, é apenas escuro e vazio.
sábado, dezembro 13, 2008
DESACREDITE
Não acredite nas verdades. O que sai da boca é sempre duvidoso. Não acredite nos "eu te amo", nos "eu sou seu amigo". Não acredite quando alguém diz que você não é, que você não pode. Mas também não acredite quando dizem o contrário. Duvide sempre de você mesmo. E se já faz isso, passe a duvidar dos outros também. Duvide de TUDO. Não acredite em nada. Somos grandes mentirosos complexos. Tente definir o que é a verdade. (Grande pausa vazia) Existe algo mais subjetivo do que a verdade? O que é a arte, senão uma tentativa de aproximação de uma verdade interior? O que é a religião, senão uma tentativa de preencher o vazio que suas verdades não preenchem? O papel da verdade não é construir. Elas são postas no mundo para que contestemos. Nós construímos; as verdades não fazem nada. Não existe nada que não possa ser destruído. Portanto, as verdades são uma tentativa de estabelecer seguranças que não existem. A única segurança vem da construção das nossas próprias verdades, que são temporárias. Quem carrega uma verdade eternamente é uma estrutura em decadência. Devemos sempre deixar espaço para o novo, para os medos, para o desconhecido, para o diferente. E viver nesses espaços, viver com medos, com inseguranças, com dúvidas, destruindo e construindo o tempo todo. A sanidade vem do caos, não da estruturação de verdades. Duvide de tudo o que eu disse e seja saudável. Mas jamais acredite na foto. Imagens e palavras não são confiáveis. Seus pés são confiáveis. Seus instintos são confiáveis. Seus medos são confiáveis. Seus sentimentos também. Mas duvide sempre para aprender coisas novas sobre você e o mundo.
domingo, dezembro 07, 2008
Arnica - tempo e espaço
Estou dentro de um caixão que é laranja, e é movido para cima e para baixo com energia elétrica. Confiamos demais naqueles cabos. Aperto o botão do primeiro andar. Me olho no espelho e vejo minha melhor amiga e minha pior inimiga, dentro dos meus olhos. A primeira jura que me ama e amará até a morte; a outra, desacredita. E dessa luta, nasce a criatura ensangüentada. Para viver melhor, acreditamos no amor das pessoas que nos cercam. E então percebo que estou sozinha. Não há ninguém ao meu redor. As pessoas que vivem na minha cabeça: confio demais nelas. Na vida prática, cedo ou tarde o ferrão encontra a pele, e me machucam. Ainda não aprendi a depurar o veneno que percorre o corpo através do sangue, atingindo partes que eu nem sabia que existiam. O veneno me ensina a profundidade do meu ser. Ainda não aprendi a achar bonita essa ramificação. [Ninguém pode nos dar aquilo que não temos. Ninguém confiante aparece para derramar em nós um pouquinho da sua confiança. Mas é muito provável que todas as pessoas que você conhece testarão a sua, porque as pessoas são sempre espelhos.] E assim vai o veneno da destruição, capilar após capilar, contaminando todas as células do corpo. Então acordo para o que há de mais real na vida: a dor, a solidão. Fico íntegra, me sinto indivíduo, não nego. Mas percebo a falta de controle em mim, no mundo. Colocamos tantas coisas importantes nas mãos de outros; nossa vida, por exemplo. Todos os dias, nos atos mais simples, nas coisas mais banais, nas mãos de médicos, de motoristas... E confiamos que tudo vai dar certo, que o amor existe em algum lugar, e que vamos chegar lá. Confiamos nos apertos de mão e nos beijos na bochecha que cumprimentam. Confiamos nos sorrisos. Pelo menos, eu sempre confiei. Até perceber como eu lido com as "quebras de contrato". Quando eu amo, não consigo ter armas de defesa. Mas se eu me defendo o tempo todo, não dá tempo -nem espaço- de amar.
quarta-feira, dezembro 03, 2008
Caganers
terça-feira, dezembro 02, 2008
Conversa séria listrada
Hoje que eu parei em casa, me bateu aquele sentimento de vazio desesperado para consumir algo, e desesperador. É como se eu corresse dele, mas está amarrado ao meu pé e, toda vez que eu páro, ele bate em mim. TUM! O sentimento. Parece com um tédio profundo. E, talvez, seja o motivo pelo qual eu tenho vontade de beber todos os dias. "O que está acontecendo comigo?", eu pergunto em vão. Eu não sei o que está acontecendo comigo.
É uma coisa boa virar um ser único? Ser uma personalidade integrada? A Estrela central do nosso sistema é uma das poucas que não possui nenhuma companheira orbitando em volta. Quase todas as outras estrelas têm. Seria esse o carma da nossa existência nesse planeta, refletir uma estrela solitária? Ter que aprender a amar a nós mesmos, independente se as outras estrelas têm uma companheira? É a nossa sina ser um centro, um ponto único no Universo?
Me encontro incapacitada de sair e conquistar, pois não quero me inserir em nenhum tipo de padrão - and the Gods know this is crazy O.o! preestabelecido de sucesso. Ou qualquer outro. Estou quase fracassando para poder criar uma nova arte, feita através da linha da vida, a minha própria vida com as minhas marcas de alma, fora das obrigações de "conseguir". Analisando, carinhosamente, a forte possibilidade de "não ser tudo aquilo que sonharam para mim", nem "tudo aquilo que eu sempre sonhei ser".
A conversa listrada é aquela que não segue as linhas do caderno. Ela atravessa a página, porque está atravessada na garganta, indo contra a imposição das linhas preestabelecidas. O espaço destinado à escrita está lá, e eu querendo ter uma conversa séria comigo mesma, pensei que não podia obedecer aquilo. Até o caderno dita como devo conversar comigo mesma, se quiser escrever, preciso seguir os espacinhos que foram feitos para facilitar a minha vida, espacinhos que não foram pensados por mim, foram mastigados e entregues prontos. Padrões, que foram feitos para quê? Por que me incomodam tanto?
O que seria de mim se eu fosse uma listra como qualquer outra, impressa em qualquer uma das 323 páginas desse caderno? Imagina se meu destino fosse ser uma listra e NEM ASSIM eu conseguisse satisfazer alguém e completar o meu destino, porque bem na página em que eu estivesse impressa, uma pessoa com sono e sem vontades teria resolvido que, logo ali, na minha vez, não escreveria entre as linhas, mas sim, contra elas. Essa é bem a cara do meu destino. Ser uma das linhas dessa página fora de ordem, de alguém que resolveu escrever fora da linha. Fim para mim.
É uma coisa boa virar um ser único? Ser uma personalidade integrada? A Estrela central do nosso sistema é uma das poucas que não possui nenhuma companheira orbitando em volta. Quase todas as outras estrelas têm. Seria esse o carma da nossa existência nesse planeta, refletir uma estrela solitária? Ter que aprender a amar a nós mesmos, independente se as outras estrelas têm uma companheira? É a nossa sina ser um centro, um ponto único no Universo?
Me encontro incapacitada de sair e conquistar, pois não quero me inserir em nenhum tipo de padrão - and the Gods know this is crazy O.o! preestabelecido de sucesso. Ou qualquer outro. Estou quase fracassando para poder criar uma nova arte, feita através da linha da vida, a minha própria vida com as minhas marcas de alma, fora das obrigações de "conseguir". Analisando, carinhosamente, a forte possibilidade de "não ser tudo aquilo que sonharam para mim", nem "tudo aquilo que eu sempre sonhei ser".
A conversa listrada é aquela que não segue as linhas do caderno. Ela atravessa a página, porque está atravessada na garganta, indo contra a imposição das linhas preestabelecidas. O espaço destinado à escrita está lá, e eu querendo ter uma conversa séria comigo mesma, pensei que não podia obedecer aquilo. Até o caderno dita como devo conversar comigo mesma, se quiser escrever, preciso seguir os espacinhos que foram feitos para facilitar a minha vida, espacinhos que não foram pensados por mim, foram mastigados e entregues prontos. Padrões, que foram feitos para quê? Por que me incomodam tanto?
O que seria de mim se eu fosse uma listra como qualquer outra, impressa em qualquer uma das 323 páginas desse caderno? Imagina se meu destino fosse ser uma listra e NEM ASSIM eu conseguisse satisfazer alguém e completar o meu destino, porque bem na página em que eu estivesse impressa, uma pessoa com sono e sem vontades teria resolvido que, logo ali, na minha vez, não escreveria entre as linhas, mas sim, contra elas. Essa é bem a cara do meu destino. Ser uma das linhas dessa página fora de ordem, de alguém que resolveu escrever fora da linha. Fim para mim.
domingo, novembro 16, 2008
Agenda
Segunda-feira
Uma cereja podre com uma pobre alma e um triste fim, ao chão da rua suja de água de peixe do fim da feira.
Terça-feira
Cães passaram, cheiraram, pessoas chutaram... Vermes nasceram. Um passarinho veio e fez cocô em cima, o que alimentou ainda mais os vermes, ajudando a acabar com a cereja.
Quarta-feira
O caroço estava à mostra. A pele aparecia em uma das metades, já meio derretida, já meio irreconhecível, já não mais cereja, já não mais vermelha. Cor de apodrecida com poeira de rua.
Choveu.
Quinta-feira
Os lixeiros varream o caroço, que foi a única coisa que sobrou.
Sexta-feira
Não mais existiu.
Sábado
Não mais existiu.
Domingo
Não mais existiu.
.
.
.
Uma cereja podre com uma pobre alma e um triste fim, ao chão da rua suja de água de peixe do fim da feira.
Terça-feira
Cães passaram, cheiraram, pessoas chutaram... Vermes nasceram. Um passarinho veio e fez cocô em cima, o que alimentou ainda mais os vermes, ajudando a acabar com a cereja.
Quarta-feira
O caroço estava à mostra. A pele aparecia em uma das metades, já meio derretida, já meio irreconhecível, já não mais cereja, já não mais vermelha. Cor de apodrecida com poeira de rua.
Choveu.
Quinta-feira
Os lixeiros varream o caroço, que foi a única coisa que sobrou.
Sexta-feira
Não mais existiu.
Sábado
Não mais existiu.
Domingo
Não mais existiu.
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Somente o necessário
Fale com ela somente o necessário. Ela está ali, naquele canto. Aquela sombra encolhida: é ela. Aproxime-se lentamente, mas vá avisando da porta que está indo vê-la. Sem cuidado, ela some. Ela está ali, precisa ir logo; vá rápido, mas sem pressa. Esqueça seu nome, esqueça do seu tamanho, da sua cor, esqueça as suas lembranças e vá apenas falar o necessário. Sabe qual é uma boa idéia? Tentar pegá-la no colo, no seu colo quente. Tente abraçá-la. Ela pode tentar fugir, ou vai ficar com medo da sua atitude. Talvez ela nunca tenha sido abraçada. Mas não espere reações, quem sabe ela já não está morta? Espero que não, que ainda existam chances. Tente reverter a sua situação, mas não tente se explicar nem peça desculpas. Seja sincero. Perceba que sem ela você não seria nada e, no entanto, ela está naquele quarto escuro, trancafiada, enquanto você sai pelo mundo e brilha. Enquanto ela se encolhe e treme, calando o próprio desespero, você usa sua voz para dar risadas e agradecer elogios. Perceba a diferença entre vocês. No entanto, sem ela, você não seria nada. Perceba quem é você agora. Nada. Nada. Nada para sempre quatro vezes ao quadrado, que somados, nem chegam a dar um inteiro. Viu quantos caralhos? Ela com certeza. Todas as gotas de esperma que fizeram chover lágrimas em cima das pessoas. E as lágrimas eram vermelhas, é claro. Perceba. Tente sentir o que ela sente. A vergonha, o medo, o ódio. Ela treme e você também. Agora você é ela. Escurraçado do próprio mundo, tente senti-se naquela pele, naquele chão frio, naquele canto gelado, naquele quarto escuro e com uma única janela, naquele chão empoeirado, naquele quarto sem móveis, naquela vida igual a sempre. Milênios de idade. Tente senti-la. Você agora é ela.
sábado, novembro 15, 2008
Vrischika - o escorpião
Força da consciência. Consciência forte. Tanto faz. No entanto, perceba: não significam a mesma coisa. São dois radicais; um significa força e o outro, consciência. Se a tradução for "força da consciência", indica o tipo de poder e de força que carrega o escorpião; não é força bruta, não é física. É algum tipo de força interna. Mas se for "consciência forte", indica também o tipo de vida interna que esse signo leva. Signo fixo, tende a estagnar nas suas emoções, não se mexe, não muda para poder examinar e exaurir cada questão, cada segundo da sua vida. Disseca a vida até o enxofre, resseca até o carvão. Transforma. A missão cármica para evoluir: abrir mão das memórias emocionais, dessa e de outras vidas. A astróloga védica disse isso, e disse que as marcas trazidas por escorpião são como cicatrizes na alma. As marcas são claras, as memórias também. Traições, mortes e muitas perdas que ainda ecoam nessa vida. Pois é, eu sou Vrischika. Agora, tudo se explica. A minha relação com a vida, a presença sempre forte de escorpião por trás dos panos... Agora tenho em mente: sou eu. Eu trazia isso comigo, agora vesti a armadura com o ferrão. O poder é meu, a insegurança também. Quando tudo fica difícil, abro mão. É assim que escorpião se move, ele abandona. Desiste. É a única ação possível dentro d'água. Você não tenta se segurar a nada, você deixa correr. É isso que preciso aprender. Deixar a água levar o que eu não consigo segurar, e não ficar com essas coisas marcadas dentro de mim para sempre.
Se expor ou não se expor, eis a questão.
Subi a montanha, estava nublado. Porém, fazia calor. Sem proteção e sem aviso, levei na bolsa todas as minhas questões, e fui arrastando meu peso redondo de ferro até lá em cima. Quando cheguei lá, o tempo abriu, e eu olhei o sol de frente. Queimei a cara. Peguei uma pedra e quebrei a corrente. Cuspi as questões no chão. Os gaviões ficaram por perto. Os urubus não ousaram. Esmaguei alguns poucos insetos, aqueles mais intrusos. Conversei com a minha cara metade, com a minha metade sem cara, com o meu choro. Abracei o tronco retorcido de uma árvore pequena, que tinha umas coisas esculpidas nele. Fiz xixi no matinho. Fiz o eco repetir aquilo que eu não queria dizer, mas precisava escutar para que virasse verdade. Pois é, você morreu. Mais um passado na minha vida. Vários "vocês" que viraram história foram deixados lá em cima daquele morro. Eu morro também. Mas eu não estava sozinha. No alto da montanha, podia observar a cidade lá embaixo, tão caótica, tão barulhenta, tão mal construída e tão feia, como eu, naquele momento. Meu cabelo ressecado e desgrenhado, a boca seca, o interior tumultuado, os pássaros cantando... O corpo sujo de terra e a cara queimada. Porque eu não importava, porque a vida daqueles pássaros continuava como que em qualquer dia, e eu ali, o diferente, um invasor tão pequeno que não importava. Tentei imitar o som dos bem-te-vi. Acabei virando um macaco. Eu virei um macaco. Ficam todas as marcas.
Agora, estou trocando de pele.
Agora, estou trocando de pele.
Meus dias de fracasso
Fracasso. Abraçar o Fracasso. Digo para ele: "agora, sou sua amiga. pode vir comigo". E vamos, de mãos dadas; um tropeço aqui, um empurrãozinho ali. Discutimos. Eu quero vencer. Mas ele me derruba. Eu quero subir, ele impede. Eu quero esbanjar, mas ele tira as oportunidades. Viramos amantes. Eu quero sair com meus amigos, mas meus amigos não me procuram. Todos os telefones estão fora de área. Apenas o Fracasso está disponível, e ele atende. Ele sempre vem quando eu não chamo. Mas sempre sei quando ele está para chegar. Sempre há chances de que ele venha, quando eu tenho expectativas. Eu espero. E, no fim, ele aparece. Sempre perto da Frustração, eles são muito amigos. Fico com ciúmes. Queria o Fracasso só para mim. Eles sugeriram um ménage. Fizemos. Eu, a Frustração e o Fracasso. Combinação muito atraente. Porém, fadada a não dar certo. Ainda bem. Ainda bem que minhas amizades são cíclicas. Assim, posso saber que ali na frente encontrarei o Sucesso de mãos dadas com a Fortuna, e eles também vão querer ser meus amantes. Deixarei... Quem sou eu para recusar sexo com a vida?
terça-feira, novembro 04, 2008
Quadro negro de carne
Risca-se com a gilete, abrindo cortes dos quais se orgulha, escreve frases na própria pele que possam revelar o seu interior. Deixa sair a verdade da vida, que é o sangue, que faz dos desenhos esculpidos ensinamentos para quem quiser ver e aprender. Esculturas líquidas. Tudo o que é escrito no quadro negro de carne é escrito com sangue e, portanto, é escrito com verdade. A crueldade com a própria pele é sentida como um carinho na própria alma; a dor ameniza o tumulto e a raiva, e as mensagens são generosidades sem tamanho aos outros vivos. Basta ter olhos para apreciar não a forma das obras, mas a alma do artista. É preciso ser um bom observador para apreciar a complexidade das pessoas. É preciso ter a coragem de um leão para fazer do próprio corpo uma cartilha.
A extensão da mentira
É mentira que a mentira tem pernas curtas. As mentiras têm pernas extensas, e correm quilômetros. Todos os filmes que começam com uma mentirinha de nada que vai virando uma bola de neve são baseados em fatos reais: a mentira embola. E vira uma verdade extensa. Um tapete de muitos e muitos metros, cheios de detalhes tecidos e de pessoas entremeadas. Quanto mais pessoas participam da mentira, maior ela fica. E a rede da mentira passa a ser infinita. Mas o ruim de mentir é que dá um friozinho na barriga... Medo de que descubram a verdade. E então, mentir vicia. E, assim, mentir vira uma aventura, vivida por quem está fazendo algo que talvez não devesse, e que definitivamente não quer contar. Vira uma travessura, uma saborosa irresponsabilidade para um dia atípico. Essa é a parte um da mentira.
A parte dois é que "mentir deixa a alma preta", como dizia o meu pai, e então é impossível mentir impunemente...
O que eu estou chamando de mentira é o que você deveriam estar se perguntando. Não assumam tão rapidamente que já sabem, por causa do conceito de cada um sobre a mentira. Ou não pensem que eu seja uma pessoa compulsivamente mentirosa, porque isso seria fácil demais. A mentira é um construto, como qualquer outro, podemos chamar também de máscaras sociais.
E usá-las é um tanto quanto cansativo, dada a necessidade.
Estou cansada de mentir para o mundo. Ficar inventando desculpas que justifiquem minhas vontades fora de hora OU ter que responder a alguém que vem lhe cobrar uma posição.
Sou obrigada a inventar desculpas que contornem a situação sem entrar num conflito direto, quando talvez, eu devesse fazer exatamente isso. Olhar o bicho nos olhos e comê-lo vivo.
Atacar, latir. Arranhar o seu focinho.
Professoras universitárias me ligando para perguntar por que eu não fui fazer a prova? O proprietário do apartamento me colocando contra a parede pintada pra perguntar por que eu quero morar sozinha? O mundo cobra uma posição. E eu não defini a minha. Quer dizer, sei exatamente a minha posição, mas para que o mundo não entre em conflito direto comigo, esse mundo prático e institucional, fico desviando por outros caminhos.
Então vocês vêem como a mentira está profundamente arraigada dentro de nós, envolvendo nossos órgãos e vísceras. Puxar a linha da mentira e ir puxando, fazer sair pelas orelhas, pela boca ou até pelo umbigo... E vamos ver no que vai dar. Eu dou notícias. Quando eu parar de ficar pedindo desculpas por quem eu sou, ou inventando justificativas para os meus quereres. Eu dou notícias.
sexta-feira, outubro 31, 2008
Objeto sujeito
Coisifique-me, me transforme em pedra, madeira, carvão, ouro, diamante ou planta. Me coloque na sua prateleira. Me transforme em lixo, reduza-me a cinzas. Julgue-me, olhe para mim de cima abaixo, meça o tamanho do meu nariz, da minha cabeça, olhos e orelhas. Olhe dentro da minha boca, examine os meus dentes. Me acaricie como se eu fosse seu animalzinho, faça eu rastejar e comer da sua mão. Me faça implorar por atenção, por um pouquinho do seu tempo. Dono da comida, que diz quando eu devo comer, quando eu devo dormir, quando eu devo existir.
Regule o ar que eu respiro, me lance um milhão de agonias, me traga estresse, faça meu coração bater em intervalos cada vez mais curtos. Me feche num quarto escuro. Me faça repetir todas as suas verdades, me faça entrar na sua pele seca e descascada e sentir as suas impressões de mundo. Faça eu calçar os seus sapatos apertados para correr quilômetros. Arranque os meus cílios para que eu não durma. Costure minhas pálpebras para que eu não veja nada. Amarre minha boca para que eu não reclame e prenda os meus braços para que eu não arranque cada pedacinho do seu corpo. Coisifique-me, me analise. Finja que somos todos desprovidos de emoções. Coloque tudo no seu contrato, e depois enfie no seu *.
Regule o ar que eu respiro, me lance um milhão de agonias, me traga estresse, faça meu coração bater em intervalos cada vez mais curtos. Me feche num quarto escuro. Me faça repetir todas as suas verdades, me faça entrar na sua pele seca e descascada e sentir as suas impressões de mundo. Faça eu calçar os seus sapatos apertados para correr quilômetros. Arranque os meus cílios para que eu não durma. Costure minhas pálpebras para que eu não veja nada. Amarre minha boca para que eu não reclame e prenda os meus braços para que eu não arranque cada pedacinho do seu corpo. Coisifique-me, me analise. Finja que somos todos desprovidos de emoções. Coloque tudo no seu contrato, e depois enfie no seu *.
sexta-feira, outubro 24, 2008
ESCOLA
Eu aprendi que você já nasce devendo, sem crédito nenhum.
E tem que se esfolar para conseguir quase nada,
e quando consegue, são quase sempre críticas de um dedo que prefere apontar que se tocar.
Somos ainda vassalos de senhores feudais,
e devemos agradecer pelo pão amassado pelo diabo. --"Cala a boca e come!", porque poderia ser nenhum.
E a revolução já começou, dentro de mim, já começou. Existem milhões de lutas, para andar pelos dias sem deixar me prender pelas mãos sujas, pelos famintos de alma. Mas essa guerra interna está me deixando doente e sem energia. E quanto mais dias vou ao mundo, menos energia tenho para a luta, quanto mais luto, menos alguém ganha, quanto mais perco, mais um dia a menos. Entende? Talvez seja de propósito. Talvez eu esteja mesmo buscando a morte. Talvez eu tenha plena consciência do alívio que ela trás. Talvez eu queira escolher. Talvez Rodrag estivesse certo. Talvez ele tenha se libertado da roda. "Talvezes" lutam dentro de mim. As células estão vivas; elas querem comer. Elas clamam pela vida.
Percebe: o que eu sei é que o tumulto que vejo aqui fora se iguala ao tumulto aqui dentro. Porque na escola não ensinam como lidar com esses trajetos? Quem vê nuvens, acordou nublado. Quem vê sol e amaldiçoa o astro, é porque está se queimando. O que está dentro é como o que está fora, o que está em cima é como o que está embaixo. Isso eles não ensinam na escola. A escola é uma bosta. A educação se perdeu tanto quanto o meu texto. E a escola é a instituição que perpetua a burrice. Ela copia e ensina a copiar, vide Estamira. E a Igreja também é uma escola, é a escola do demônio, porque ela é a religião dos homens e o inferno somos nós. Controle burro: não obrigada.
O que sai de valor desses lugares são as ovelhas desgarradas. Viva as ovelhas desgarradas.
E tem que se esfolar para conseguir quase nada,
e quando consegue, são quase sempre críticas de um dedo que prefere apontar que se tocar.
Somos ainda vassalos de senhores feudais,
e devemos agradecer pelo pão amassado pelo diabo. --"Cala a boca e come!", porque poderia ser nenhum.
E a revolução já começou, dentro de mim, já começou. Existem milhões de lutas, para andar pelos dias sem deixar me prender pelas mãos sujas, pelos famintos de alma. Mas essa guerra interna está me deixando doente e sem energia. E quanto mais dias vou ao mundo, menos energia tenho para a luta, quanto mais luto, menos alguém ganha, quanto mais perco, mais um dia a menos. Entende? Talvez seja de propósito. Talvez eu esteja mesmo buscando a morte. Talvez eu tenha plena consciência do alívio que ela trás. Talvez eu queira escolher. Talvez Rodrag estivesse certo. Talvez ele tenha se libertado da roda. "Talvezes" lutam dentro de mim. As células estão vivas; elas querem comer. Elas clamam pela vida.
Percebe: o que eu sei é que o tumulto que vejo aqui fora se iguala ao tumulto aqui dentro. Porque na escola não ensinam como lidar com esses trajetos? Quem vê nuvens, acordou nublado. Quem vê sol e amaldiçoa o astro, é porque está se queimando. O que está dentro é como o que está fora, o que está em cima é como o que está embaixo. Isso eles não ensinam na escola. A escola é uma bosta. A educação se perdeu tanto quanto o meu texto. E a escola é a instituição que perpetua a burrice. Ela copia e ensina a copiar, vide Estamira. E a Igreja também é uma escola, é a escola do demônio, porque ela é a religião dos homens e o inferno somos nós. Controle burro: não obrigada.
O que sai de valor desses lugares são as ovelhas desgarradas. Viva as ovelhas desgarradas.
Sofia
O cabelo é vermelho e preto. Como filha do Diabo. Minha mãe inferniza minhas manhãs e sai. Por todos os dias da minha vida, essa foi nossa rotina. O forró que o porteiro canta me acorda. Ele liga o som às alturas. O canto é desafinado como uma sirene. As panelas e pias de todas as cozinhas do condomínio se ampliam até chegar na minha janela. O cachorro do vizinho chora um choro estridente. Ele não pára. As crianças gritam, chamam pela mãe, brigam, gritam mais alto, quebram tudo. A mãe só vem para gritar, brigar, por causa do comportamento das crianças. A vizinha da casa de trás também grita com os cachorros. Ela é um dos cachorros. Ela late. O marido dela é mudo. Ela late. O marido dela deve ser surdo. Todos os outros vizinhos não são; entreolham-se das janelas, em silêncio. Por que contribuir com mais barulho? Há sempre um martelo, uma serra, em algum lugar por perto, sempre uma bateção, sempre uma briga de família, sempre uma obra durante os dias. Ainda no sol do meio-dia, tudo fica mais difícil. Se ficar em casa é não ter sossego, então acostuma-se com a fluência dos pensamentos e a buzina dos carros, o freio dos ônibus, a falação constante e inconsciente. A televisão ligada junto com a panela de pressão. A Ana Maria Braga, aquele papagaio agudo, tudo vai na panela de pressão e na comida que vai alimentar aquela casa em poucas horas. Tudo isso me causa um desespero e agonia. O Jesus na cruz está preso na porta de casa; é uma casa cristã. Engraçado como as pessoas cristãs gostam de infernizar os outros. Sempre criando infernos pessoais, sempre pedindo a Deus, nas filas do metrô, do banco... Sempre contribuindo para as coisas infernais do mundo, sempre cuspindo suas interjeições e os seus beijos pros santos. Meditação, ioga... Blasfêmia! Razão para se fazer mais barulho. Antes houvesse apenas vazio.
segunda-feira, outubro 20, 2008
LÓGICA E INTUIÇÃO
O pragmatismo é um exercício constante para uma pessoa cujo mercúrio tem traços netunianos. Traduzindo: é necessária uma dose extra de atenção para realizar a comunicação de modo claro, objetivo e direto para uma pessoa que entende a linguagem como um conjunto de símbolos, nem todos eles verbais.
A linguagem verbal pode ser enfadonha e, muitas vezes, prefiro me abster dela. O silêncio me satisfaz por completo.
A comunicação para mim não se dá em trocas de teorias e opiniões, e sim muito mais em uma troca energética, mas encontro um sem número de pessoas incapazes de se comunicar nessa língua. Até eu mesma, que seria o mais natural para mim, muitas vezes me perco nas informações, devido ao tempo imerso na língua estrangeira (essa língua falada pelo mundo).
Encontrei o motivo central da minha luta atual entre o conhecimento teórico, mental, acadêmico e o conhecimento de mundo, sentido, absorvido: é o mercúrio netuniano me pedindo atenção, ao que realmente importa. Esses dois mundos importam. Porque eu preciso obter fluência na linguagem do mundo para que eu, do meu mundo, consiga me comunicar com todos aqueles que não são nativos da minha linguagem pessoal. Engraçado estar me formando em Tradução.
A informação que sai da boca das pessoas e a informação que obtenho a partir da vibração energética dos seus corpos, a posição dos membros, o movimento de mãos, pés e olhos são, muitas vezes, dissonantes. E eu tenho acesso às entrelinhas. Às vezes, nem o emissor da mensagem tem. Às vezes, percebo ansiedades e outros sentimentos ocupando a atenção daquele que está falando. Às vezes, percebo a barreira que certas pessoas colocam para se proteger, e vejo a força que várias armaduras têm. Muitas são eficazes. Eu mesma tenho as minhas. Devido a minha consciência sobre esses fatores, muitas vezes manipulo esses detalhes no meu corpo, levando a pessoa a uma dupla mensagem. Daí que ninguém sabe muito bem o que eu quis dizer com aquilo que eu disse, daí que muita gente desconfia. É o risco que eu corro ao jogar com a linguagem, que realmente pode ser uma faca de dois gumes. Assim como pode ser a proteção; ela pode ser adequada, mas nós as usamos em tempo integral. Agimos no mundo como se nos defendêssemos. Deixamos de trocar.
Abusamos da linguagem verbal e de seus signos, mas estamos trocando referenciais vazios.
-Eu demorei mais de dois meses pensando sobre o assunto para construir essa teoria.-
O que realmente importa na troca: energia. Deixar os sentimentos vazarem na comunicação. Falar exatamente de acordo com o que se sente. (= problema no mundo do "real".) Ter sensibilidade ao falar, claro, mas não conter a energia, deixá-la fluir. Manter a comunicação em aberto, em via dupla. Falar, mas querer escutar o outro, por inteiro, não somente as suas palavras. É um abraço de corpo inteiro, não só de rostos, não só de plexos solares.
Essa é a comunicação que eu procuro.
Por isso tenho preferido me comunicar através da música. É com ela que sinto a eficácia nesse tipo de comunicação. Os referenciais verbais podem ser tão frios e vazios, porque as pessoas retiram deles o conteúdo energético. Já na musicalidade, elas não têm muita escolha. Porque a música penetra, mesmo naqueles que se sentem protegidos, defendidos e ofendidos contra os gêneros musicais. A música causa o desarmamento ou o armamento, mas isso quer dizer que a pessoa escuta.
Voilá! Mensagem construída. Que alívio!
Boa semana.
domingo, outubro 19, 2008
A doença social dos "sem-paixão"
A doença social dos "sem-paixão" é um mal que ataca muita gente. É uma doença coletiva. Há pessoas fazendo de tudo para recuperar a paixão perdida; muitas ficam viciadas em crises, outras arrumam brigas, algumas fazem coisas perigosas, e tudo para reavivar "o morto". Mas a maioria acorda de manhã e vai trabalhar, volta para casa dia-após-dia, afirmando não sentir absolutamente nada, por nada nem por ninguém. Pessoas que estão em relacionamentos mas que não conseguem tempo hábil e energia para investir em surpresas e em iniciativas legais, estão sofrendo desse mal. E a cada dia a doença faz mais vítimas, mas não há previsão de cura. As causas são muitas e o tratamento é pessoal, apesar da doença ser social.
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