segunda-feira, fevereiro 23, 2009

Olhar cristalizador

[The Gossip - Eyes Open]
Tenho vivido umas experiências interessantes, porém um pouco dolorosas, já que o material de pesquisa sou eu mesma. Eu me coloco à prova, eu sou a isca; eu mesma me coloco no anzol para os peixes e corro os riscos. Nem sempre isso é proposital; muitas vezes, estou apenas "sendo". Tem uma coisa que observo de comum nessas situações: o estresse emocional que acontece dentro das pessoas quando elas observam uma mudança brusca em você. E elas reagem profundamente, às vezes quase partindo para a agressão física, e muitas agridem verbalmente, pela frustração das expectativas que elas mesmas construíram e tinham sobre você.
Eu entendo que moldamos as pessoas que conhecemos e todas as coisas do mundo, numa tentativa de torná-lo um lugar mais seguro. Essas são as prisões que construímos para nós: tentar moldar as pessoas, tentar moldar a nós mesmos e também prever as situações, por ideologias, modos de vida, hábitos, e etc, achando que diminuímos a carga de surpresas da vida. Colocamos em nós mesmos uma enorme carga negativa por tentar prever o que as pessoas e as situações podem nos trazer, mesmo sabendo que essas expectativas vão ser, quase sempre, frustradas, quebradas. Não cansamos; precisamos estabelecer parâmetros e limites. Precisamos criar um cercadinho para nós.
Eu realmente não esperava chegar num churrasco de aniversário e ter causado tanta comoção só por estar comendo um pedacinho de carne e umas rodelinhas de salsichão. Assim, na vida de tantos outros isso é uma coisa tão corriqueira. Mas na minha, acontecem comoções. Algumas pessoas não se conformam que eu possa estar comendo carne, já que anos antes defendia a proteção dos animais. Pois bem, continuo ao lado dos animais, mas já não acho uma ofensa a eles que eu os coma, pelo contrário, acho que eles estão sendo honrados. Muita gente que eu conheço não consegue lidar com essa mudança de paradigma e realmente se bagunça. Até quase te agride.
Estou cansada desse olhar cristalizador, que não admite mudanças, e sei que ainda é só o começo para uma pessoa que almeja a vida pública. Ainda não sei lidar com isso. Eu também tenho dificuldades de lidar com as minhas próprias frustrações, mas eu admito que as pessoas mudem de idéia e procuro não julgá-las por isso. Eu não acho que seja um problema que as pessoas experimentem, que elas saiam do casulo e sejam ousadas. Acho perfeitamente natural qualquer experiência que amplie nosso circuito de visão, geralmente tão fechado e limitado pelas coisas em que acreditamos, pelas coisas que fomos obrigados a acreditar, e por tudo aquilo que queremos ser. Sair um pouco do próprio mundinho e tentar entender como as outras pessoas vivem, dentro dos seus próprios universos, é uma coisa boa. Mas acho que eu sou um caso isolado. E acho que esse tipo de comportamento não tem muita vez no mundo social e segmentado em que vivemos, que PRECISA dos rótulos. As pessoas que procuram mais e querem mais devem ser alvos fáceis, especialmente quando pretendem compartilhar as experiências e informações. Ainda estou em construção com relação a essa idéia (e tantas outras). Mas não vejo nenhuma confusão nisso. Está tudo muito claro: eu sou uma pessoa contraditória, e acho isso muito natural.

sábado, fevereiro 21, 2009

O que está acontecendo com a minha auto-imagem?

As pessoas dizem que eu sou bonita, e eu sempre achei que saía muito bem nas fotos, qualquer foto, mesmo fazendo careta costumava ficar ótima. De repente, como que de supetão, todas as fotos começaram a ficar feias. "O que será que está acontecendo?" - tento achar algum referencial, alguma origem para o problema... "Vênus? Lua? Saturno? Problemas de casa 1? Casa 5? Casa 1o?" Antes, eu sabia fazer pose, e o sorriso que eu imaginava estar sorrindo era o mesmo que aparecia na foto. Agora eu procuro sorrir os meus sorrisos, mas os dentes saem tortos. O sol sempre está acima do meu nariz, e eu fico com narigão. Narigão e dentes tortos. Gorda. As bochechas saem gordas. O cabelo está sempre desgrenhado. Cabelo de bruxa, narigão de batata, cada olho para um lado, dentuça e com a boca torta. A boca parece que foge ao controle. Antes, quando eu era bem mais confusa e nublada, eu saía ótima nas fotos! Agora que estou um pouco mais inteira e ensolarada, fico horrorosa. *O que será que está acontecendo?* Seja lá o que for, já acontece há algum tempo. Quando falam em "FOTO!", já vou saindo de fininho, ou ficando na fila de trás, pra aparecer menos e dar menos chance ao acaso. Será que isso tem a ver com a presença de Saturno, com seu olhar limitador? Feio. Vamos ser honestos: olhar feio. Será que isso tem a ver com a idade? Vamos ficando mais velhos e precisando de, cada vez mais, parafernalhas serelepes para sairmos bem na capa e sermos felizes. Cadê a minha beleza natural transportada para as fotos?! Deve ser um problema de luz. Muita luz não dá certo em fotografia.
Hunf.
>: /
Ou então, um dos gatos deve ter comido.

quinta-feira, fevereiro 12, 2009

É só girar o botão (Drica, esse é pra você! Pra nós...)

Então... Três anos de terapia reichiana, mais dois de astrologia, algumas consultas astrológicas, dentre elas uma leitura védica muito impactante, acupuntura, elixires de cristal, florais, homeopatias. Milhares de consultas de tarô, milhões de visitas ao meu site guru astro.com, ainda vou contar se são dezenas ou centenas de mapas natais de pessoas conhecidas e análises mil; vários livros comprados e lidos de auto-conhecimento e auto-ajuda, uma infinidade de conversas com amigos e até com pessoas menos íntimas. Incontáveis choros trancada em banheiros, quartos, varandas, cozinhas, etc. São horas e horas de bateria de diskman e, agora, de mp3 player ouvindo música e chorando pela rua, alguns cigarros fumados por angústia, várias células mortas queimadas das mãos por socar o colchão com raiva tentando expressar a minha revolta... Nem sei quantas unhas roídas por nervosismo e ansiedade... Alguns dias desperdiçados por tristeza... Anos e anos investindo no meu aprendizado sobre mim mesma, achando que a evolução espiritual é a coisa mais importante que existe nessa vida (só pra quem sente que "tá no atraso"). Enquanto isso, são dezenas de amigos perdidos, várias noites sem dormir... Pior! Várias noites mal dormidas, várias noites mal comida, várias noites e dias e meses e anos mal amada... Será que isso algum dia passa? Joanette Napolitano diz que não. Shirley Manson diz que não. Tori Amos diz que não. Quem mais, gente? Ajuda aí! Fiona Apple com certeza diria que não. Alanis Morissete diz que não. Madonna! Diria que não também. E o Raul... Que disse não milhões de vezes e até esperava a própria morte, achando que seria salvo de tudo. O que muda em nós então? É só girar o botão? Que botão é esse, gente, e onde é que ele está?! São quase trinta anos de vida, e ainda não achei. Será que em mim veio faltando???
Uma real transformação... Id extreme make over. Soul extreme make over.
Que dia será que isso vai acontecer, hein? "Tic-tac, tic-tac, tic-tac. I only got 4 minutes to save the world". Tem gente que diz que sabe onde o meu botão está... risos. Seus bobos. Será que vocês sabem mesmo como girar esse botão?
; )

segunda-feira, fevereiro 09, 2009


,da cor da terra
.centro

AMAR É MORRER

EU BUSCO O AMOR, EU NÃO BUSCO VOCÊ. ONDE ELE ESTIVER, EU VOU. AONDE ELE ME CHAMAR, EU VOU. O AMOR, E SEMPRE O AMOR. ARREBATAMENTO, ETERNIDADE. SE VIER EM FORMA DE ABRAÇO, ENCONTRO. SE VIER EM FORMA DE BEIJO APAIXONADO, ACEITO E AGRADEÇO. SE VIER NUM CONTATO COMPLETO DE CORPO, MENTE E ESPÍRITO, É SAMADHI E MORREREI. MAS É EXATAMENTE MORRER QUE EU QUERO. AMAR É MORRER. DISSOLUÇÃO DE DOIS EM UM OUTRO ENORME E SEM FACE E SEM LIMITES. UNIVERSO. AMAR É SER O UNIVERSO INTEIRO, TODOS OS PONTOS EM UM, E SER UM PONTO EM TODOS OS OUTROS. AMAR É TORNAR-SE ENORME E ÍNFIMO, É DESPERTAR PARA TODOS OS TEMORES E SOFRER SÓ COM UM. É DERRETER COM O TOQUE. É SENTIR-SE QUASE VIVO.

domingo, fevereiro 08, 2009

artes plásticas

a manipulação de materiais... a escolha dos materiais... as obras em si, a expressão daquilo que o artista quer mostrar... eu nunca vi uma obra quente feita com vidro. eu nunca vi uma obra quente feita com chumbo. eu nunca vi uma obra quente feita com mármore. materiais frios, temperamento frio do artista? onde fica a expressão da alma, quando a arte reflete apenas a inteligência do seu criador? Que concepção estética e de vida tem um artista que trabalha com esses elementos lisos e límpidos? Que relações essa pessoa trava com o meio? A arte filosófica não é impessoal com relação ao objeto? Impessoalidade me lembra frieza. Mas também, não posso misturar artista e arte. Talvez, uma pessoa que trabalhe com materiais frios queira esconder o que sente. Se expressar através de outros meios, porque tenta suprimir as vozes do coração, e não quer se expor. Clarice Lispector disse que faz arte aquele que não sabe fazer a outra coisa... O que seria essa outra coisa? Pensei em amor. Para mim, arte tinha que vir do coração, mas estou aprendendo que não. Ela pode muito bem vir do intelecto também. E eu desvalorizo um pouco. Gosto mais do simples que vem do coração, do que do sofisticado que é frio. Calafrios. Escolho o arroz com feijão feitos no quintal do que o restaurante chique de comida francesa. Do que adianta esculpir em mármore uma cena de amor ou de sexo? Plástico sim, porém não vazio. Plástico, porém preenchido. Eu questiono. Música não pode ser uma arte plástica para os ouvidos? Eu destesto quando alguém diz que eu canto bem. Ok, mas eu tenho alma. Cantar bem não é envolver com a voz. Cantar bem não é ninar os seus fantasmas, e fazer você ficar bem com os próprios demônios. Cantar bem não é a minha alma. Cantar bem é apenas a parte plástica da minha arte. Espero que não seja apenas isso que você vê em mim.

sábado, fevereiro 07, 2009

Te espero siempre mi amor

: Enxergo o mar imenso da Baía de Guanabara e me transformo na sua superfície. Me estico, alongando o meu corpo horizontalmente, para que eu possa cobrir a sua vastidão, mas não consigo. A longitude das suas águas é do tamanho de tudo aquilo que desconheço sobre você, meu amor, e o meu grau de urgência pelas necessidades mil é altíssimo, leste e oeste. Minha pele não te cobre, embora eu tente. Enquanto isso, fico nua, nervos à mostra. Eu não te cubro, você não me descobre. Eu vejo você, queria que você me visse também. Psiquê quer ver o rosto do seu amado, mas sabe que não pode olhar para trás. Eros não pode ser visto e vai embora por conta da teimosia dela, a deixando só. Mas meus sentimentos são meus, muito meus, e esses ficam. Não dependo de ninguém para amar, e amo independentemente. Amo você por quem você é, não preciso que me devolva nada. Mas queria que me amasse também. Eros está atrás de mim, enchendo as minhas cinco taças. Enquanto não estão cheias serei paciente, dentre todas as outras coisas que também sou. Eu sinto você, queria que você me sentisse. Os peixes estão morrendo.

quinta-feira, fevereiro 05, 2009

Aquilo que todo mundo tem, mas que ninguém admite.

todo mundo está certo.
a razão acima de tudo.
todos com as suas razões, eu prefiro ficar com o meu cu.

Hoje já é passado

Hoje eu raspei todos os pêlos do meu corpo: braços, cabelo, sobrancelha. Hoje você não me ligou. Hoje eu tirei a minha pele e a estiquei no varal. Hoje eu chorei. Hoje, eu abri as duas bandas de trás com as mãos e sorri para o sol. Hoje eu mergulhei no meu próprio sangue. Hoje eu fui até a rua e caminhei. Hoje eu não falei com você, mas falei com um amigo. Hoje eu fiz planos. Hoje eu indaguei. Hoje eu pensei em coisas e depois pensei noutras totalmente contrárias àquelas. Hoje eu quis ser só alma. Hoje eu pensei muito em sexo e até conversei sobre isso. Hoje eu tive vontade de estar só, mesmo com tesão. Ontem eu vi relâmpagos no céu, e hoje já choveu. Hoje eu fui ao banco. Hoje minhas unhas saíram correndo porque queriam chegar na frente. Hoje eu perdi um amigo. Hoje eu queria ter sido amada, ontem eu fui. Hoje foi um dia solto no meio da minha vida. Hoje eu me enfeitei e fui até o mar, me oferecer para Iemanjá. Hoje já acabou, se esgotando no meu pensamento sobre o que iria fazer no futuro próximo. E eu já fiz tudo, em um dia só, em poucos minutos.

terça-feira, fevereiro 03, 2009

A liberdade do corpo

Eu quero possuir meu próprio corpo de forma que se eu resolver me deitar no chão com amigos e amigas e fazer como os gatos fazem, eu não tenha problemas com a consciência moralista.
Eu quero possuir o meu corpo de forma que não me preocupe em usá-lo quando sentir vontade, mesmo que laços de valor tenham sido estabelecidos anteriormente.
Eu quero possuir o meu corpo e amá-lo tão apaixonadamente que não sobre espaço nem vontade de sentir necessidade de ser amada por outros.
Eu quero possuir meu próprio corpo para dançar esperando o ônibus, para vestir uma roupa de fada e ir trabalhar.
Eu quero possuir o meu próprio corpo para não ter medo dos seus limites, para não ter vergonha dos seus defeitos, para ser a casa para o meu espírito, para que eu possa crescer em beleza e não em tamanho.
Quero ter uma liberdade de movimento que seja incrível.
Quero saber imitar a elegância dos gatos e a destreza dos macacos.
Eu invejo as pessoas que têm liberdade com o próprio corpo. O meu está aqui esse tempo todo e ainda não nos acostumamos um com o outro.

EstrategistaS

As pessoas que não se expõem, que não falam o que pensam, que não costumam reagir e nunca, jamais falam sobre as suas emoções são ótimas estrategistas. Para o quê, eu não sei, talvez para a vida. Acho que essas pessoas pensam que se relacionam melhor com as outras. No entanto, eu não as vejo se relacionando melhor comigo, ou seja, a estratégia delas é visível, mas não funciona para mim. E eu nem sonho com um mundo no qual as pessoas não briguem. Um mundo sem conflitos não faz parte da minha lista de "quereres". A minha estratégia de vida e de relacionamento é tentar ser coerente com o que sinto antes de tudo, o que para aquelas pessoas é uma estratégia péssima. Elas consideram o caldo emocional como uma pestilência porque as emoções são instáveis e egoístas. Eu tento fazer do que sinto a minha verdade, e sei que não é uma coisa fácil. Mas mais difícil seria ignorar o que sinto, ou sentir o que se sinto e deixar de expressar, deixar perdido, solto, em algum lugar dentro de mim. (...) Como essas pessoas fazem, eu não sei. Para onde vai tudo o que elas não expressam, toda a tristeza, toda a raiva, eu não sei. Ou então essas pessoas não sentem tanto. Estão fechadas, estão frias, treinaram para ser uma superfície de mármore ensaboada onde as pessoas e situações deslizam sem se fixar, nem se machucar. Corações de gelo. Seria um erro?
Mas, por outro lado, estou admirando, cada vez mais, as pessoas que são como eu, e vivem essa mesma verdade. Estou admirando as pessoas que se entregam às outras, que assumem a linha de frente da batalha, que empunham suas espadas e não têm medo dos problemas que vêm com as relações, que não fogem deles e vivem os conflitos, mesmo que sempre buscando o apaziguamento. As pessoas podem ter milhões de defeitos, mas para conquistar o meu respeito basta não ter medo de olhar os conflitos de frente para resolvê-los. O medo de falar sobre os sentimentos é muito comum, comum demais para mim. Eu preciso viver algo que ninguém nunca viveu e ser a pioneira em alguma coisa, de alguma forma. Eu não posso ter medo de falar, de me expressar. Eu vivo da linguagem! Se relacionar com aqueles estrategistas é praticamente traçar um monólogo de vida. Não dá para trocar, não dá para errar e acertar. Você vai falando e vai agindo, e a expressão do rosto não muda, e você nunca sabe como as coisas que acontecem as afetam. E você continua seguindo, quase sozinho. Eu tenho como uma necessidade básica acreditar que algum nível de comunicação e de acordo podem ser atingidos através do discurso e das conversas. O silêncio faz parte de uma comunicação de sucesso, mas só é bom quando a relação está boa. O fato de saber que o interlocutor pode responder criativamente é algo que considero maravilhoso.
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Enquanto isso, na sala de controles, depois de todo esse whikas sachê, eu só queria mesmo dizer que fulano e fulano são idiotas, e que me perderam pela incapacidade de dizer o que sentiam.

quarta-feira, janeiro 28, 2009

Estação da Luz

De um lado da ponte, mistério, arte e beleza, parte da cidade que não dorme: a Pinacoteca e o parque. Do outro, um cotidiano comum, cinzento e feio de uma cidade que não dorme: cerveja, sujeira, um monte de gente e churrasco grego. No meio da ponte, em baixo, dois sentidos para uma mesma linha de trem. Depois das seis, putas e travecos ficam fazendo pose ali, esperando trabalho. Na Estação da Luz, há um piano para todos aqueles que quiserem parar e tocar. Achei isso demais, bom demais. Estímulos auditivos super agradáveis para os corpos cansados. Foi tão legal isso! É como se houvesse um piano no meio da Central do Brasil, no RJ. Imagina? Resolvemos sair da exposição que não chegamos a visitar por conta da hora para ir tomar uma cerveja do outro lado. E a experiência foi muito interessante. Paramos num boteco qualquer ali daquele lado e perguntamos que cerveja eles tinham. Foram SUPER gentis e educados, nos falaram para ficar à vontade. -O Gabriel pediu para escrever que aqui é um lugar muito legal.- Mas, gente... Senti um acolhimento que não sinto em milhões de outros lugares. As pessoas simples nos receberam muito bem. Ninguém parou para mexer com a gente, ninguém tentou nos assaltar. Eu era uma playboyzinha misturada no meio daquela gente, minha roupa e minha pele não deixavam enganar. Mas eu me senti muito confortável no meio do povo; eu geralmente me sinto assim, muito acolhida, pela realidade honesta em que vivem aquelas pessoas... E, agora, eu. Será que eu nasci para ser pobre e feliz? Será que só tenho que admitir isso para ser feliz, e parar de tentar conquistar aquilo que eu acho que eu mereço, porque na verdade não mereço coisas mas sim tranquilidade? Se ser pobre fosse tranquilo... Eu trocaria num piscar de olhos. Mas aquelas pessoas pareciam bem. E felizes. Qualquer caraoquê de bar, qualquer cervejinha, qualquer bate-papo de esquina é estimulante e alegre. Eu sou uma dessas pessoas e eu faço o intermédio entre os ricos e os pobres, porque não sou nem uma coisa nem outra. Fui criada numa família decente, e tive educação, mas o nariz empinado não acontece, e nem o conforto em lugares luxuosos e suntuosos. Prefiro o barzinho da esquina, a quadra de samba, o churrasco no vizinho. Sabe? Então, estou descobrindo. E não é maravilhoso? Hoje eu andei de trem, e foi uma experiência acolhedora. Eu sou do povo, eu sou gente, eu sou terra molhada pela chuva. Eu nasci dessa terra e para ela voltarei algum dia. Eu sou gente.

quinta-feira, janeiro 22, 2009

Chuva de São Paulo

Mp3 no ouvido, ouvindo [Hard Candy] pela primeira vez. Pensar que fui fazer depilação para esquecer minhas dores... Virilha cavada, saem os pêlos e a alma. É ótimo para acabar com qualquer que seja o seu tesão. Depois, resolvi ir caminhar. Como voltar para casa? Aquela casa escura, cheia de fantasmas e vozes. Passei pela frente do prédio e continuei andando. Vontade de comprar cigarros, mas eu não faço isso. Vontade de fazer tudo o que eu não faço. Estava frio e chovendo uma chuva fina. No meu rosto e, ao redor, um capuz cinza. Gosto de casacos com capuzes, mas o frio e a chuva não estavam me incomodando, já que se mesclavam delicadamente com o meu estado de espírito. Como entender uma pessoa que se isola e não conversa com você? O problema é dela? É seu? Você não sabe e fica confusa, e sente tesão, mas não sabe se fala ou se afasta, porque ficar em cima de uma pessoa que quer ficar sozinha é afastá-la mais ainda... Muitas dúvidas, fui caminhando e sentindo a minha dor, minha melhor amiga e companheira. Acredito nela mais que em tudo nessa vida. Fui até a Avenida Pacaembu olhar o movimento, antes que escureça e eu, mulher, perca minha liberdade. Hoje é um dia daqueles em que eu desperto o olhar de todos os homens ao meu redor, menos daquele que eu amo. Como pode ser isso? Todos olham pra mim curiosos e desejantes, eu não tenho nada demais hoje, a não ser feromônios. Mas o meu amante amado está em outro mundo hoje, e eu não tenho o endereço. A Madonna aos meus ouvidos me dá mais um pouquinho de coragem. Sabe como é, centro de São
Paulo, um prédio de fachada escura e portas fechadas, você se pergunta o que tem lá dentro. Me imagino tocando a campainha, abre um cara de terno e eu pergunto: "você tem um emprego pra mim"? Queria ser a mulher com poucas, mas lindas roupas, cabelo feito e super desejada. Queria estar nesse mundo de vícios e música, mundo de dança de pouca roupa, muito corpo, mundo do sinistro, do meu Samael. Mas eu uso uma burca, e vendo o meu rosto. Escondo o que eu realmente gosto nesses dias, porque eu sinto muito medo. Na chuva de São Paulo não vejo solução a não ser voltar para casa. Vejo o vento vindo, trazendo uma chuva que cai me acariciando e uma pena de galinha voa pelo meu dedão do pé. Ninguém me espera. Quero comprar cigarros, mas eu não faço isso. Hoje é um daqueles dias em que eu faria tudo o que não faço. Eu não ando de moto, mas HOJE eu subiria na garupa de qualquer um, qualquer um que parasse e me convidasse. Hoje é um daqueles dias.

domingo, janeiro 18, 2009

Santa Puta - Puta Santa

Com relação ao sexo, é mais fácil ser homem? Eu tive essa impressão outro dia, entrando no banho; a sensação me invadiu. Acho que eu estava um pouco revoltada com o fato de meus amigos estarem mostrando mulheres gostosas na internet pro meu namorado. Nós, mulheres, fazemos menos dessas coisas. Só me lembro de ficar divulgando foto de homem pelado uma vez na minha vida, há anos, aquela antiga do Peter Steel (Type'O'Negative). Mas fora esses casos anormais, não me lembro de ficar grudada em foto de homem, babando, salvo as do Bon Jovi na adolescência e as do Jerry Cantrel, na minha adolescência tardia. Mas eu mais suspirava do que desejava. Embora as fotos do Jerry, pra mim, tivessem o mesmo efeito de uma playboy. Era impressionante e inédito. Mas isso é comum entre as mulheres como é comum entre os homens? Eu também fico excitada com as fotos de mulheres nuas, mas algo dentro de mim despreza essa manifestação e a forma como tudo é feito. Quero saber qual é o limite entre ser uma mulher que posa nua e uma mulher consciente do seu poder sagrado. "Por que a cisão entre as duas formas?", é a minha pergunta.
Eu percebo muitos conflitos entre o meu papel sexual e a consciência do sagrado (nu) feminino. Por que existe a sensação de que preciso me resguardar porque sou sagrada? Por que o papel das santas seria o de se preservar? Por que também não posso ser uma mulher gostosa, desejada, desejável e desejante e ser, ao mesmo tempo, pura? Essa divisão é de responsabilidade da igreja católica, que colocou a mulher reservada, protegida e mãe como a sagrada e a mulher entregue sexualmente como a puta? Existe uma Maria mãe e santa e uma Maria santa que não era nem um pouco virgem.
A mulher prostituta se mostra e se expõe sem medos. A mulher santa é cheia de segredos. Por que a taça da mulher é tão menosprezada na nossa sociedade?

Meus irmãos que parecem uns lobos babões, fariam o papel de defensores da minha dignidade para outros homens, caso eu resolvesse tomar posse do meu corpo? Ou ficariam babando em cima das minhas fotos, como todos os outros homens, fazendo todos os comentários machistas e sexistas que já conhecemos?

Foi pensando no olhar masculino sobre os papéis que as mulheres interpretam hoje, principalmente esses dois (até onde uma mulher pode ser sexual sem ser vulgar, por que as mulheres vulgares são colocadas abaixo das mulheres reservadas, porque os homens só conseguem lidar com mulheres sexualmente expostas enquanto objetos, etc) que resolvi escrever sobre isso, correndo o risco de estar totalmente equivocada sobre todos os assuntos juntos. Mas, como não estou tentando dar nenhum tipo de resposta, acho que não vai ser tão polêmico.

Eu acredito no poder mágico das mulheres; nós somos as taças sagradas, o Santo Graal. Por que eu me sentiria uma puta ao me oferecer a vários homens ao mesmo tempo e por que me sentiria mal de ser confundida com uma prostituta? Por que essa divisão entre o sexo e sagrado, já que o desejo existe?
Por que eu acho que as mulheres que se expõem sexualmente são desconectadas do sagrado delas? Que história é essa de mulher objeto? O desejo é nosso, o consentimento também. Não sei por que é tão fácil e tão difícil, para mim, lidar com essa questão. Onde foi que ficou desconectada a sexualidade da noção de sagrado? Por que as orgias não podem ser santas? Por que temos medos e sentimentos de posse sobre nossos parceiros?
E a pergunta que não quer calar... Por que todas as Afrodites querem ser únicas, a única deusa mais bela do Olimpo, se somos muitas, todas e infinitamente belas?

quarta-feira, janeiro 14, 2009

Escrito em papel higiênico

Eu me olho no espelho desde que sou pequena, mas nunca me vi como me vejo hoje.
Eu estou grande. (!) É uma surpresa?!
Acho que não senti os anos passarem, acho que talvez muitas coisas tenham se mantido nos mesmos lugares por 29 longos anos. O endereço das avós, seus gostos e posicionamentos, a minha rinite, o meu endereço e telefone, os amigos de infância - não, os amigos jamais se mantiveram, nem os namorados. Malu disse que esse é o carma da família, de ambos os lados; amores que não dão certo. Sabendo de antemão que meu amor me será infiel, quero acabar com tudo já. Sabendo, prevendo a dor que vou sentir, quero acabar com tudo já. J, A. Já. o Sol. Mas esse não é o meu tigre. O meu tigre e a minha paixão são uma só: a música. Sim, eu vim salvar o Al, mas o que ele veio fazer por mim? ["The spire is hot"]
Tori Amos
Thelema
Coração partido
Astrologia
Rinite
São coisas que me acompanham há muitos anos. Minha mente é mais rápida que minha verdade. E eu desconfio antes de me conectar ao seu coração. E eu sou uma caçadora nata. E ele é um animal assutado; foge ao menor sinal de perigo.
Ainda tenho vontades... Aprender mais línguas, a cozinhar e a costurar. Também quero melhorar na música. Por que eu gosto desses homens pintudos? Não há um homem amável e fiel para mim, ó universo cabalístico? Quero completar com interrogações até o final desse rolo. Sou uma escritora em ["Building, tumbling down..."] desespero, escrevendo no primeiro papel encontrado, que é um rolinho amigo de papel higiênico, que me acompanha nas crises de rinite e mudanças de tempo["Didn't know our love was so small..."].
"TEACH ME HOW TO LOVE MY BROTHERS WHO DON'T KNOW THE LAW"
Se você me perder,
você vai sentir a minha falta
mais do que você imagina.
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Talvez eu devesse ter dito isso a todos os malditos traidores, amigas e ex-namorados. Mas esse não é o tipo de coisa que se avisa, é?
Me perca e sofra para sempre com a minha lembrança, a lembrança de mim, de luz, paz, alegria e conflito. Sim, por que não?
Aceito.
Me aceito.
Me permito. Você deveria fazer o mesmo.
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Ficar com outra pessoa, já tendo alguém, é fácil. Difícil é amar de corpo e alma. Sentir tesão é fácil, é amor de bicho; quero ver você se entregar aos orgasmos dolorosos de prazer do tamanho do universo sem temer a morte. Eu quero ver. Eu te desafio.

domingo, janeiro 11, 2009

Lata de atum para dois

Você tem uma lata de atum e quer fazer um sanduíche para duas pessoas. Se foi você quem preparou, pode ter o benefício de ser o primeiro a se servir do recheio. Se você escolhe o benefício de ser o primeiro, poderia aproveitar para pegar mais recheio e ficar com um sanduíche gordo. Mas se você já escolheu um dos benefícios, pegar mais do que a sua metade faz você sair com a alma gorda também, e você sai devendo. Mas se você escolhe pegar apenas a sua metade, sai com um sanduíche gostoso e com o ego preenchido de satisfação por ter feito a sua parte, abrindo mão de um benefício extra e egoísta para que o próximo também possa aproveitar o recheio da mesma forma que você.
O nosso mundo é uma lata de atum, para ser dividido entre milhões de pessoas. Fazer apenas a sua parte, trabalhar no seu campo energético, interferir apenas na sua própria vida, manter-se centrado em você, faz a lata ser melhor dividida entre todos.

quarta-feira, janeiro 07, 2009

7-JAN-09 (APX-5 NA)

Eu comprei o meu violão elétrico de nylon, um modesto Yamaha APX-5 NA, suficiente para cumprir minhas promessas de voz, de vida, de música. Meus amigos foram comigo, acompanharam partes do processo, há anos me escutam cantar; gostaram do som do violão também. Comprei. Estou feliz, mas preocupada. Será que vou conseguir me igualar à imagem que as pessoas têm de mim, na expectativa que temos que ser dona desse violão me leve a praticar mais e faça de mim uma cantora melhor? Eles sonham, eu sonho, o violão agora é instrumento de sonho. Eu toco, eu canto... Eu quero gravar as músicas novas. Espero que alguém se encante com elas o suficiente para me acompanhar e fazer parte do processo criativo. Eu preciso desse "mais um". Eu tento acompanhar o sonho, mas ele é muito mais rápido do que eu. Ele vai, eu fico. Mesmo que eu falhe em conseguir ser a imagem que as pessoas imaginam de mim, cantando, pelo menos, ficam os sonhos.

What will you be

Do you see that train coming in your direction? What will you do when it hits you, what will you do? It is going to hit you, for sure... Will you keep the promise of what you would be?

Can you be yourself in your everyday life, or do you dream of some parallel life where you can be what you want to be, what you said you would be?

Can you be what you want in your everyday life? It's in the dog, in the people you're with, it's in the street, in every place that you meet. Can you keep the promise of what you would be? Can you keep the promise of what you said you would be?

domingo, janeiro 04, 2009

Quando eu sinto dor, o mundo se torna demasiadamente real. As coisas são cortadas nos seus excessos e só fica o que é essencial. A consciência se amplia e a completude se apresenta de um jeito aterrorizante. São poucas as coisas que eu percebo nesse estado, mas elas são vastas, imensas. Tipo: a solidão. A consciência de que estamos mesmo sozinhos. Geralmente a sensação que acompanha é sentida nos ossos ou nas vísceras, mas eu sinto menos medo quando estou sofrendo do que quando não estou. Eu sei o que pode se apresentar. Acho que eu conheço o lado das sombras e até me sinto confortável ali. Também sinto menos fome.

Ao mesmo tempo em que eu sinto que estarei sozinha em absolutamente qualquer ocasião da minha vida, eu quero acreditar que isso é uma mentira que ficou muito arraigada, e que podemos contar com "coisas". Podemos contar com as pessoas próximas naquele momento (idealmente), e podemos contar com a nossa própria dor. Lidar com a própria dor talvez seja o princípio da percepção de nós mesmos, ou seja, perceber que somos um indivíduo com quem podemos contar. Costumamos nos isentar da nossa própria lista de pessoas com quem podemos contar. E, talvez, descobrir que somos uma pessoa dessa lista faça com que outras pessoas assim apareçam na nossa vida.

Mas a descoberta de que os relacionamentos são superficiais e horizontais, e que somos nós que agimos na vertical a partir desses relacionamentos reafirma a minha posição de que estamos sozinhos. Então, apesar das dificuldades, preciso admitir que a dor e a solidão são partes integrantes do ser.

O ano passado não fechou, assim como o novo não se abriu. As vidas se carregam. Os rituais vulgares de datas são falhos porque não abarcam o geral e são extremamente impositivos. Não há fugas para o Natal; não há fugas. Isso é extremamente real. Temos escolha? Para tudo existe um início e um fim. E me falta essa compreensão. É difícil aceitar que não temos controle.

Mas por que nós, pessoas como eu, participamos da vida no pilar da severidade, sofrendo dessa forma? Sentindo uma realidade interna e lutando contra ela, querendo acreditar em outras verdades, verdades da mente? 

Tenho dois copos ao meu lado, um de vinho e um de coca-cola. Queria uma resposta, mas não consigo decidir de que copo beber. Queria companhia para a minha escrita, mas não quero tirar as pessoas do que estão fazendo e puxar um assunto que eu não sei muito bem onde quero chegar. E não puxe um assunto quando você sabe o que podem responder, e não quer ouvir. Confrontação.

Ter uma idéia vaga do que se quer dizer é tudo o que eu tenho agora. 

sexta-feira, dezembro 19, 2008

ANT ARES

Quem mandou eu encarnar... Se eu soubesse que seria tão trabalhoso, teria feito metade nas vidas passadas. Escute bem o meu "ai...", lá no fundo. Está lá. Os anjos não são mansos e nunca foram, e essas vozes GRITAM - bem nos meus ouvidos. E eu venho falhando nos testes, e a música é como um alívio, uma água que mata a sede dos meus gritos. Gasta-se muita saliva neste corpo, nessa vida. Antes fosse beijando (saudade de beijar o amor com amor). Mas não tem trégua. Anjinhos bonzinhos? Com trompetas, anunciando as boas novas? Anunciadores que são/somos? Contestam(os). Quebram(os) as estruturas anteriores, deixando as ruínas pros outros. Suuuuper legais. Esses são os meus irmãos que ficaram do lado de lá. Trazemos a espada da justiça, e o meu trabalho tem a ver com isso, só que eu ainda não sei o que é. Esse ofício que vem com o meu dharma. Ele vem da esfera dos anjos, e eu achei que fosse a música. (...) -Uma pausa.- E, Alexandra, não mais desculpas. E não mais pedir ou agradecer amor, que é derrota. -Outra pausa.- Ver o anjo no outro é ver o anjo de todos. Você precisa trabalhar a dois, mas veio com a Estrela Alfa que antagoniza o deus da guerra (!). E ainda colocam em você um nome de guerreiro. Queria eu ser uma doce garotinha, leve e regozijante, brincando de subir em árvores pra comer os frutos, correndo atrás das borboletas até completar treze anos, e depois poder namorar de mãos dadas, ser cortejada, namorada. Não dessa vez. Mas subestime o meu 1,63m. Subestime o meu sexo, a minha inteligência, subestime qualquer aspecto do meu ser. Então você reconhece a Estrela Alfa. Mas não pretendo assustar, meu objetivo não é ficar contra você. Na verdade, eu preciso de muita paciência pois preciso virar você, vestir a sua pele, ver com os seus olhos. Ver o anjo em você é ver o anjo de todos. E eu preciso ver o meu próprio.