sexta-feira, outubro 31, 2008

Objeto sujeito

Coisifique-me, me transforme em pedra, madeira, carvão, ouro, diamante ou planta. Me coloque na sua prateleira. Me transforme em lixo, reduza-me a cinzas. Julgue-me, olhe para mim de cima abaixo, meça o tamanho do meu nariz, da minha cabeça, olhos e orelhas. Olhe dentro da minha boca, examine os meus dentes. Me acaricie como se eu fosse seu animalzinho, faça eu rastejar e comer da sua mão. Me faça implorar por atenção, por um pouquinho do seu tempo. Dono da comida, que diz quando eu devo comer, quando eu devo dormir, quando eu devo existir.
Regule o ar que eu respiro, me lance um milhão de agonias, me traga estresse, faça meu coração bater em intervalos cada vez mais curtos. Me feche num quarto escuro. Me faça repetir todas as suas verdades, me faça entrar na sua pele seca e descascada e sentir as suas impressões de mundo. Faça eu calçar os seus sapatos apertados para correr quilômetros. Arranque os meus cílios para que eu não durma. Costure minhas pálpebras para que eu não veja nada. Amarre minha boca para que eu não reclame e prenda os meus braços para que eu não arranque cada pedacinho do seu corpo. Coisifique-me, me analise. Finja que somos todos desprovidos de emoções. Coloque tudo no seu contrato, e depois enfie no seu *.

sexta-feira, outubro 24, 2008

ESCOLA

Eu aprendi que você já nasce devendo, sem crédito nenhum.
E tem que se esfolar para conseguir quase nada,
e quando consegue, são quase sempre críticas de um dedo que prefere apontar que se tocar.
Somos ainda vassalos de senhores feudais,
e devemos agradecer pelo pão amassado pelo diabo. --"Cala a boca e come!", porque poderia ser nenhum.

E a revolução já começou, dentro de mim, já começou. Existem milhões de lutas, para andar pelos dias sem deixar me prender pelas mãos sujas, pelos famintos de alma. Mas essa guerra interna está me deixando doente e sem energia. E quanto mais dias vou ao mundo, menos energia tenho para a luta, quanto mais luto, menos alguém ganha, quanto mais perco, mais um dia a menos. Entende? Talvez seja de propósito. Talvez eu esteja mesmo buscando a morte. Talvez eu tenha plena consciência do alívio que ela trás. Talvez eu queira escolher. Talvez Rodrag estivesse certo. Talvez ele tenha se libertado da roda. "Talvezes" lutam dentro de mim. As células estão vivas; elas querem comer. Elas clamam pela vida.

Percebe: o que eu sei é que o tumulto que vejo aqui fora se iguala ao tumulto aqui dentro. Porque na escola não ensinam como lidar com esses trajetos? Quem vê nuvens, acordou nublado. Quem vê sol e amaldiçoa o astro, é porque está se queimando. O que está dentro é como o que está fora, o que está em cima é como o que está embaixo. Isso eles não ensinam na escola. A escola é uma bosta. A educação se perdeu tanto quanto o meu texto. E a escola é a instituição que perpetua a burrice. Ela copia e ensina a copiar, vide Estamira. E a Igreja também é uma escola, é a escola do demônio, porque ela é a religião dos homens e o inferno somos nós. Controle burro: não obrigada.

O que sai de valor desses lugares são as ovelhas desgarradas. Viva as ovelhas desgarradas.

Sofia

O cabelo é vermelho e preto. Como filha do Diabo. Minha mãe inferniza minhas manhãs e sai. Por todos os dias da minha vida, essa foi nossa rotina. O forró que o porteiro canta me acorda. Ele liga o som às alturas. O canto é desafinado como uma sirene. As panelas e pias de todas as cozinhas do condomínio se ampliam até chegar na minha janela. O cachorro do vizinho chora um choro estridente. Ele não pára. As crianças gritam, chamam pela mãe, brigam, gritam mais alto, quebram tudo. A mãe só vem para gritar, brigar, por causa do comportamento das crianças. A vizinha da casa de trás também grita com os cachorros. Ela é um dos cachorros. Ela late. O marido dela é mudo. Ela late. O marido dela deve ser surdo. Todos os outros vizinhos não são; entreolham-se das janelas, em silêncio. Por que contribuir com mais barulho? Há sempre um martelo, uma serra, em algum lugar por perto, sempre uma bateção, sempre uma briga de família, sempre uma obra durante os dias. Ainda no sol do meio-dia, tudo fica mais difícil. Se ficar em casa é não ter sossego, então acostuma-se com a fluência dos pensamentos e a buzina dos carros, o freio dos ônibus, a falação constante e inconsciente. A televisão ligada junto com a panela de pressão. A Ana Maria Braga, aquele papagaio agudo, tudo vai na panela de pressão e na comida que vai alimentar aquela casa em poucas horas. Tudo isso me causa um desespero e agonia. O Jesus na cruz está preso na porta de casa; é uma casa cristã. Engraçado como as pessoas cristãs gostam de infernizar os outros. Sempre criando infernos pessoais, sempre pedindo a Deus, nas filas do metrô, do banco... Sempre contribuindo para as coisas infernais do mundo, sempre cuspindo suas interjeições e os seus beijos pros santos. Meditação, ioga... Blasfêmia! Razão para se fazer mais barulho. Antes houvesse apenas vazio.

segunda-feira, outubro 20, 2008

LÓGICA E INTUIÇÃO

O pragmatismo é um exercício constante para uma pessoa cujo mercúrio tem traços netunianos. Traduzindo: é necessária uma dose extra de atenção para realizar a comunicação de modo claro, objetivo e direto para uma pessoa que entende a linguagem como um conjunto de símbolos, nem todos eles verbais.
A linguagem verbal pode ser enfadonha e, muitas vezes, prefiro me abster dela. O silêncio me satisfaz por completo.
A comunicação para mim não se dá em trocas de teorias e opiniões, e sim muito mais em uma troca energética, mas encontro um sem número de pessoas incapazes de se comunicar nessa língua. Até eu mesma, que seria o mais natural para mim, muitas vezes me perco nas informações, devido ao tempo imerso na língua estrangeira (essa língua falada pelo mundo).
Encontrei o motivo central da minha luta atual entre o conhecimento teórico, mental, acadêmico e o conhecimento de mundo, sentido, absorvido: é o mercúrio netuniano me pedindo atenção, ao que realmente importa. Esses dois mundos importam. Porque eu preciso obter fluência na linguagem do mundo para que eu, do meu mundo, consiga me comunicar com todos aqueles que não são nativos da minha linguagem pessoal. Engraçado estar me formando em Tradução.
A informação que sai da boca das pessoas e a informação que obtenho a partir da vibração energética dos seus corpos, a posição dos membros, o movimento de mãos, pés e olhos são, muitas vezes, dissonantes. E eu tenho acesso às entrelinhas. Às vezes, nem o emissor da mensagem tem. Às vezes, percebo ansiedades e outros sentimentos ocupando a atenção daquele que está falando. Às vezes, percebo a barreira que certas pessoas colocam para se proteger, e vejo a força que várias armaduras têm. Muitas são eficazes. Eu mesma tenho as minhas. Devido a minha consciência sobre esses fatores, muitas vezes manipulo esses detalhes no meu corpo, levando a pessoa a uma dupla mensagem. Daí que ninguém sabe muito bem o que eu quis dizer com aquilo que eu disse, daí que muita gente desconfia. É o risco que eu corro ao jogar com a linguagem, que realmente pode ser uma faca de dois gumes. Assim como pode ser a proteção; ela pode ser adequada, mas nós as usamos em tempo integral. Agimos no mundo como se nos defendêssemos. Deixamos de trocar.
Abusamos da linguagem verbal e de seus signos, mas estamos trocando referenciais vazios.
-Eu demorei mais de dois meses pensando sobre o assunto para construir essa teoria.-
O que realmente importa na troca: energia. Deixar os sentimentos vazarem na comunicação. Falar exatamente de acordo com o que se sente. (= problema no mundo do "real".) Ter sensibilidade ao falar, claro, mas não conter a energia, deixá-la fluir. Manter a comunicação em aberto, em via dupla. Falar, mas querer escutar o outro, por inteiro, não somente as suas palavras. É um abraço de corpo inteiro, não só de rostos, não só de plexos solares.
Essa é a comunicação que eu procuro.
Por isso tenho preferido me comunicar através da música. É com ela que sinto a eficácia nesse tipo de comunicação. Os referenciais verbais podem ser tão frios e vazios, porque as pessoas retiram deles o conteúdo energético. Já na musicalidade, elas não têm muita escolha. Porque a música penetra, mesmo naqueles que se sentem protegidos, defendidos e ofendidos contra os gêneros musicais. A música causa o desarmamento ou o armamento, mas isso quer dizer que a pessoa escuta.
Voilá! Mensagem construída. Que alívio!
Boa semana.

domingo, outubro 19, 2008

A doença social dos "sem-paixão"

A doença social dos "sem-paixão" é um mal que ataca muita gente. É uma doença coletiva. Há pessoas fazendo de tudo para recuperar a paixão perdida; muitas ficam viciadas em crises, outras arrumam brigas, algumas fazem coisas perigosas, e tudo para reavivar "o morto". Mas a maioria acorda de manhã e vai trabalhar, volta para casa dia-após-dia, afirmando não sentir absolutamente nada, por nada nem por ninguém. Pessoas que estão em relacionamentos mas que não conseguem tempo hábil e energia para investir em surpresas e em iniciativas legais, estão sofrendo desse mal. E a cada dia a doença faz mais vítimas, mas não há previsão de cura. As causas são muitas e o tratamento é pessoal, apesar da doença ser social.

am I becoming so boring

ontem, sábado à noite, namorado em casa, preferiu ir dormir do que ficar acordado brigando comigo; foi um final de semana daqueles... fiquei sozinha acordada, assistindo à lista das 40 músicas mais importantes na história do metal, programa apresentado pelo sebastian bach... fui que fui, da quadragésima à primeira. o momento auge da noite: alice in chains estava na lista, e o jerry cantrell apareceu falando, ao lado de uma senhora inchada e morena, chamada mike inez. álcool, minha gente... e é, o tempo passa. poucas bandas apareceram duas vezes: judas priest, pantera, guns and roses, black sabbath, iron maiden, metallica... quem mais? na lista estavam ainda: def leppard, anthrax, skid row, twisted sisters, kiss, acdc, SEPULTURA, korn ("the best band EVER named after a veggetable" - pérola do sebastian), rage against... Ah, e uma banda que cantava "balls to the wall" (O.o). Enfim: nos embalos de sábado à noite. And my life has become so fucking boring to the viewers' eyes, but I had a good time.

-às vezes o bom humor precisa vir de uma guitarra distorcida.

quinta-feira, outubro 16, 2008

Mini-conto

Estava cansada da sua vida até ali. Até que recebeu um telefonema, e sua vida mudou.

Re-presentando o passado

Oi vento quente, hum... Vem trazendo o passado. Sinto o cheiro do cloro da piscina do Tijuca. Os passos ensopados na sandália de plástico argentina e a prancha de isopor em baixo do braço dirigem-se para a Vovó Catarina, na Henry Ford. Empadão de queijo de domingo. Olhos vermelhos e irritados de cloro, roupa molhada, desconforto de calor e cansaço. Felicidade boba de um dia ensolarado num bairro conservador do Rio de Janeiro. Os mesmos morros, as mesmas cores ainda reinam. Os mesmos cheiros ainda aparecem, trazidos pelo vento.

terça-feira, setembro 23, 2008

Caroço de uva

Lá vai a menininha, dirigindo o seu carrinho... Querendo ser gente grande, achando que possui o seu mundinho. A janela está aberta. Vou oferecer o produto que ela vai comprar; de todas as frutas que vendo, oferecerei a uvinha sem caroço, vou ver o que ela fala. Coitadinha da menininha. Quantos anos será que ela tem? Não prendem seus pais por deixá-la dirigir sem ter idade para isso? Não comerá a fruta-do-conde, nem as minhas pêras. O que ela pode querer é a uvinha sem caroço. Mas que menininha mais amarguinha! Nem as minhas uvinhas ela quis comprar.

sábado, setembro 13, 2008

partindo da raiva

Lá vêm os seus tentáculos, se infiltrando em todos os espaços, tentáculos com espinhos, da bruxa do mar, se infiltrando e invadindo, todo o espaço que há, precisa ser dela. A bagunça, o caos, a estagnação... Tudo dela, mas quer que seja meu também. Insustentável. Completamente insustentável. Não há paz aqui. Ambiente intoxicante. Imundo, destroçado. Essa não é a minha casa.

lições do amor e da falta dele

Lições do amor: aprender é garantido.
Com o amor, ou com a falta dele.

Enquanto eu fico sentada aqui na minha cadeirinha filosofal, tomando esse sorvete, em algum lugar do mundo um tufão pode estar destruindo tudo. Esse nosso deus polêmico, amoral...
Que permite que eu me delicie, e enquanto gozo, enquanto sorrio, outras tantas pessoas sofrem e choram. E isso é equilíbrio(?).

Mas sinto-me desconectada das palavras escritas. Só tenho conseguido me comunicar cantando, tocando música.
*não consigo deixar de pensar que estamos, o tempo todo, passando uns por cima dos outros.

Existem mais lições do amor, garanto, mas todas elas são doídas e, para cada pessoa, uma experiência. No entanto, o sentimento de falta é de todos.

Estou sentindo uma inclinação para escrever sobre o mal, qualquer dia desses...

segunda-feira, setembro 01, 2008

segredo

Minha vida

é uma besteira

uma poeira cósmica

eu gozo quando acordo........... eu morro quando acordo............................... todos os dias quando acordo, eu prefiro expirar do que inspirar.

eu prefiro sempre me esvaziar do que me encher. estou sempre esperando, mesmo que em movimento....................................... eu odeio quando o trânsito pára.

O sopro de Hécate

Portal da sala, corredor de vento, vento frio sopra, soprando, levando meus cabelos, beijando minha face, arrepiando meus pêlos. Lembro desse frio, lembro desse gozo na dor, no passado, nas feridas antigas e abertas, nas águas paradas. Percebo todos os filhos que nunca nasceram, não só meus, mas de todas as mulheres, e que ficaram todos dentro da minha barriga e esse vento é quando eles retornam, e pairam ao meu redor. A presença das almas, de tudo o que já passou mas que eu me recuso a deixar ir, a presença de todos os amados que nunca puderam ser carregados próximos ao coração. O leite que nunca jorrou não jorrará também durante o inverno. Nada vai florescer pelos próximos dias. Ela engoliu uma única semente. Foi só o que foi preciso. A semente que não explodiu, a fez viver no inferno. A semente que não germinou, a deixou presa e fez com que a terra toda secasse. Todos os sentimentos não passam da garganta. Tudo mais ficou intragável. Todas as sementes geradas pela imaginação fecunda não pesariam tanto. É um espinho de amor, preso ao coração, que a faz sangrar eternamente enquanto os dias passam e o sol ainda existe. E ela só vive à noite, pois é quando o frio aumenta que o peso diminui, e que ela consegue respirar.

quarta-feira, agosto 27, 2008

Hoje eu vou matar aula

Hoje eu vou matar aula. Tenho que entregar o artigo final da iniciação científica, já que a apresentação é amanhã e só hoje, véspera, é que terminei o bendito. Terminei não; desisti dele.
Parece chato e foi muito chato. Imagina escrever e reescrever essa chatice por um ano! Mas eu consegui fazer isso de manhã, e daria tempo de ir, só que não quis. Adoro usar as minhas desculpas.
Fato é que se eu não for à aula, não vou encontrar a Bárbara, e por uma coincidência incrível como no blog letra "J" (Fim de Tarde), eu adicionei o blog dela à lista de blogs à direita. Nos conhecemos há algum tempo; ela namorou um amigo meu de infância; ela é de sagitário, que é meu ascendente, e foi parar lá na minha faculdade. Igualzinho como no conto do Jhonas. Só que nunca mais paramos para conversar. Ela senta lá na frente e participa das aulas, enquanto eu sento lá atrás e quero morrer.

Mas amanhã, depois da minha provação iniciática (foi mais fácil entrar dentro da caverna escura lá na Floresta da Tijuca), vou sentir uma certa leveza novamente, e um gostinho de LIBERDADE. Iuhu para mim, iuhu para nós.

sábado, agosto 09, 2008

A Busca


Quando pararmos de procurar o que já sabemos não existir, quando estivermos *absolutamente-convencidos-inteiramente* de que aquilo que tanto queremos não é possível, no que a vida se transformará? Quando pararmos de procurar a completude e a plena satisfação, não por cansaço, mas por convencimento, estaremos olhando para o quê?

Quando (simplificando) homens e mulheres pararem de procurar aquele "special someone", o que estarão fazendo? O que estarão buscando? No que estarão empregando o seu tempo?

Olha, ficamos submersos em TRABALHO (e eu coloquei a caixa-alta para ser uma caixa mesmo, cúbica, na qual nos encaixamos), e damos às nossas vidas esses dois significados: produção ou busca. É mais fácil seguir com o trabalho. É cansativo e sem sentido, mas é mais fácil porque, dia após dia, acordamos e fazemos, sem pensar. Mas mesmo sabendo que a completude dada por outra pessoa não existe, insistimos em continuar procurando. A emoção não obedece ao que já sabemos. Ela anseia e talvez até se alimente da dor provocada pela frustração (everytime) da mentira que acreditamos de que alguém nos completaria. Nossas avós juram que no tempo delas dava certo. Estou muito enfática? Não é essa a busca secreta de todo ser humano? Uma fusão satisfatória com qualquer coisa?

Eu dou voltas com a língua e com os pensamentos, porque os sentimentos estão em mim, me movendo. Eu acordo todos os dias movida por essa grande insatisfação e pelo gosto na dor de ser frustrada, e, por isso, me coloco a buscar, todos os dias, por algum segundinho de satisfação, mesmo que na dor.

Que os outros pássaros cantem canções diferentes da minha, ao menos. Que nos outros céus haja arco-íris. Que outros corações estejam cheios de sangue, pulsando em uma só direção. Que nem todos os destinos sejam esse da frustração e insatisfação... Mas será que mesmo isso vai se provar uma mentira?

Indicador apontou o passado


Lá se foi minha unha preta, ensangüentada, sangue duro feito pedra, sangue de quem vive na cidade, de concreto, sangue de piche. Lá se foi, mas eu a guardei, enroladinha em uma gase. Tudo o que é meu ou que um dia foi, símbolo de alguma coisa importante, eu tenho mania de tacar no fogo. Mas um fogo cerimonial. Sabe? Por exemplo, fotos de pessoas, pedaços meus, essas coisas. Coloco tudo no fogo. O fogo é uma excelente arma contra o fogo, sabe? É verdade.

O que mais que é verdade? Muita gente estava achando o meu dedo no-jen-to. Não sei também como; me pergunto. Esse dedo, apesar de ter sido resultado de uma intensa dor acidental e, no entanto, freudiana, estava me trazendo um orgulho absurdo. A única pessoa malhada como um gato. E, de uns tempos pra cá, tinha aparecido um buraquinho nela. Dá pra ver, na foto, como se fosse o olho branco do feijão, dá pra ver? Aquilo é a minha outra unha crescendo por baixo.

Pois é, os ciclos naturais... Estava esperando que ela caísse, mas chegou um dia que metade dela estava livre, e a outra metade presa, e eu fui chamada a tomar uma decisão: "escuta, você prefere ser lançada ao acaso e à sua falta de cuidado consigo mesma e sangrar desavisadamente, ao procurar algo dentro da bolsa, ou você prefere ir consciente a um médico e dar um jeito nisso"? Eu resolvi dar um jeito nisso. Continuo achando que eu deveria ter colocado apenas um band-aid. Resolveria o problema temporário e deixaria o fluxo natural agir. Mas eu nunca fui boa em deixar as coisas simplesmente acontecerem.

Ainda essa semana, estava perguntando a uma amiga por que nós gastamos um tempo enorme e tanta energia planejando coisas para sempre fazer diferente do que planejamos? É como se precisássemos da segurança do plano para poder ser a força contestadora, e ir contra si mesmo. É muito louco isso. Uma força rebelde que perde tempo tentando se organizar, se planejar... Incrível perda de tempo. Mas incrível mesmo, de arrancar sorrisos dos nossos rostos, de tremenda loucura. Eu não sei mais do que estou escrevendo. Baixei o cd da Linda Perry, e me deu vontade de escrever. O ponto alto do meu dia hoje foi: ir ao ambulatório cuidar do meu dedo, que eu achei que estivesse inflamando. A falta de inflamação no coração com relação à minha própria vida, aparece no dedo que indica e aponta os caminhos, não é mesmo? Como seria diferente. Aí, antibiótico. Aí, curativo. A ferida se fecha para a vida, para o novo.

Mas não foi para vir o novo que eu tomei a decisão de arrancar o velho?

terça-feira, julho 29, 2008

Yngwie Malmsteen

Achei uma fita com o "The Seventh Sign" gravado, com o encarte escrito na letra de mão de um ex-namoradinho, guitarrista (duh). Cabeludo (DUH!). Juro que pensei em jogar fora; mas antes eu coloquei no som. Estava bem na música "The Seventh Sign", ".... we are making Lucifer so proud..." Haha, muito bom! Vou contar um segredo: eu tenho esse cd, e gosto dele. Então, não faria diferença ficar ou não com a fita, a não ser pelo fato de que ela me levou de volta a essa época de aproximadamente 12 anos atrás. Quando eu era uma criança das trevas, e andava pelas ruas acreditando que era às 18h que meu corpo acordava, e esperava um vampiro vir bater na minha janela, me trazendo a vida eterna. Eu queria a imortalidade através do laço de sangue, sempre acreditei nisso quando era mais nova. E a fita me fez lembrar das noites em que a breguice dos acordes piegas do Malmsteen eram perfeitamente cabíveis dentro de um quarto escuro, no meio de uma pegação leve com o namoradinho, aos 14 anos. Aquele "rush" de estar apaixonadinha, e começando a descobrir as coisas da vida, aqueles solos de guitarra misturados com beijos molhados e quentes, nas noites de verão do Rio. E depois nas de inverno. Essa sensação não volta. Muitas esperanças estavam à frente. Pareciam estar. E as camisetas pretas, de banda, e o pessoal de banda que andava com a gente. E o cheiro das amendoeiras da Tijuca, e as lojas de cd, e as horas gastas andando de um lado para o outro. E os ensaios. Muito legal. Me deu saudades.

sexta-feira, julho 04, 2008

Os pensamentos e o corpo pesam

Antes que todos pensem que sou infeliz no amor, quero deixar uma coisa bem clara: não sou. Sofri um pouco com a morte do amor romântico, mas isso já tem tempo e foi um rito de passagem que levou à uma percepção bem legal; a única completude que posso procurar (e talvez, até encontrar) é comigo mesma. E essa fusão com esse "outro" que tanto procuramos, é uma fusão para curar a nossa fragmentação interna. Não sei se, de fato, essa junção dos pedaços é mesmo possível. Nossa sociedade reflete o oposto; somos fragmentados e múltiplos, e talvez that is the way it should be. You know? E então, a procura não seria por juntar os pedaços e nos tornarmos unificados, mas aceitar a multiplicidade e aprender a trabalhar com ela. Em todos os níveis.

Minha faxineira estava aqui dizendo que a bíblia prevê o resfriamento do amor, que é um dos sinais do fim dos tempos. Realmente, parece que o amor tem escapado mais vezes do nosso mundo para outros... Mas ele ainda está presente. Mesmo que, cada vez mais, existam casos de mães que matam seus bebês, e outros casos, igualmente horripilantes. O amor ainda está por aqui. Escasso? Não sei. Como escrevi há alguns posts abaixo, talvez seja a nossa percepção de amor que mudou; talvez ele use máscaras agora. Talvez ele seja múltiplo e fragmentado, de forma a podermos encontrar um pedacinho de amor a cada esquina, no cantinho da rua, jogado fora, abandonado, porque as pessoas não o reconheceram como tal.

Pensar enlouquece? Eu acho que pensar pesa. E cansa muito essa exigência de produção acadêmica e profissional. Apesar de internamente eu ser muitas, em corpo sou uma só e esse corpo se cansa de ter que se carregar para atividades múltiplas, que exigem que eu me entregue completamente, louca e apaixonada, a cada uma delas. Como de amor eu vim parar em produção acadêmica eu não sei. Mas é uma questão quente no momento. A da produção acadêmica. Estou em vias de fechar a pesquisa de iniciação científica; de férias das aulas, mas iniciando uma nova etapa a partir de segunda-feira. Que idéia minha pegar estágio nas férias. "Bem-vinda à vida adulta, Alexandra", escuto Saturno dizendo. Saturnão... Eu sei que é você por trás disso tudo.

quinta-feira, julho 03, 2008

Fora de área

Então... Pensei em várias coisas para escrever nesse post. O Fluminense perdeu ontem --quando eu, que nem gosto de futebol, tinha acabado de decidir que era tricolor (já que parece muito mais fácil responder "Fluminense!" ao invés de ficar explicando que não tenho time, porque não curto futebol, nheé-nhé-nhé etc). E "fora de área" até invoca esse assunto, mas eu quero falar mesmo sobre a minha conta de telefone celular. Cada mês vem mais alta. Eu AMO dizer os meus passos aos meus queridíssimos amigos, amo sentir o cheirinho de árvores da minha rua e ligar para minha vovozinha para compartilhar isso com ela; enviar mil beijos de bom dia quando acordo pensando em alguém e ligar pro namorado de 30 em 30 minutos minutos para conversar sobre algo importantíssimo, mesmo que passageiro...

Mas minha gente, não vou poder mais! O que é a CLARO me cobrando R$146, 02 para eu manter a minha vida social e o meu fluxo de comunicação com as pessoas que eu amo?!

Meus amigos valem muito mais, mas a Claro não vale um tostão. E mesmo que valesse, eu não tenho como pagar tanto. E ODEIO pagar por serviços tão mal prestados!

Gente... E tem outra coisa. Quem a revista Playboy acha que é, para ficar oferecendo cachês de um milhão de reais para as mulheres pousarem nuas? (É que sem querer eu vi a Luísa Tomé falando sobre isso hoje no programa daquela top model, Ana "Homem-soluço/chupão", enquanto eu esperava impaciente na sala da ultrassonografia que eu ia fazer do meu dedo machucado.) Eu juro que estava tentando ler "When is a translation NOT a translation", da Susan Bassnett, para a minha reunião de pesquisa, mas a tv estava em CIMA da minha cabeça. Quase que literalmente. E isso foi uma coisa que me indignou também. Por mais que uma mulher tenha princípios e morais muito bem estabelecidos, se ela for FODIDA de grana, como vai negar uma oportunidade assim? "Olha, minha filha... Você não precisa fazer muito, tá? Fica parada enquanto a gente penteia os seus pentelhos, passa um batonzinho e faz uns bicos bem sexy, enquanto a gente conserta seu corpo e deixa vocÊ linda!" - por um milhão de reais (?????????)!

1) É só um corpo nu. 2) Oferaçam esse dinheiro para o meu porteiro pousar nu! Ele precisa dessa grana, como muitas outras pessoas, precisam. E aposto que elas trabalhariam por isso! 3) Caralho, a mulher é mesmo reduzida a NADA em todas as sociedades. E isso me mata.

quarta-feira, junho 25, 2008

Vezes perfeitas

"O corpo envelhece", pensei. "Por que não somos feitos de outro material, como plástico?" Mas depois, me dei conta que em outros materiais, alguns danos são para sempre. Imaginem o rosto de plástico em contato acidental com fogo ou ácido. Mas depois, percebi que nosso rosto também derreteria. Só que nossos machucados cicatrizam. E essa foi a pólvora da semana: a percepção de que nosso corpo se refaz. Não só as lagartixas possuem esse dom maravilhoso, nós também. E (quase) todas as nossas células se reconstituem. E isso não é maravilhoso? Eu achei. Toda a vida se renova, o tempo todo, e a gente nem percebe. Somos imortais, nesse sentido. A vida achou um jeito de fazer a alma viver mil vezes; o corpo morre, mas depois ele renasce. Quantas vezes for preciso. Quantas vezes forem perfeitas. Nossos pais morrem, mas vivem através de nós, das nossas células. A vida parece que começa e acaba, mas ela é um ciclo perpétuo. Achei isso tudo maravilhoso. Não tenho motivos para não ser feliz; o ser infeliz que havia, morreu. Hoje, sou alma em um corpo novo. Eu renasci.