quinta-feira, fevereiro 05, 2009

Hoje já é passado

Hoje eu raspei todos os pêlos do meu corpo: braços, cabelo, sobrancelha. Hoje você não me ligou. Hoje eu tirei a minha pele e a estiquei no varal. Hoje eu chorei. Hoje, eu abri as duas bandas de trás com as mãos e sorri para o sol. Hoje eu mergulhei no meu próprio sangue. Hoje eu fui até a rua e caminhei. Hoje eu não falei com você, mas falei com um amigo. Hoje eu fiz planos. Hoje eu indaguei. Hoje eu pensei em coisas e depois pensei noutras totalmente contrárias àquelas. Hoje eu quis ser só alma. Hoje eu pensei muito em sexo e até conversei sobre isso. Hoje eu tive vontade de estar só, mesmo com tesão. Ontem eu vi relâmpagos no céu, e hoje já choveu. Hoje eu fui ao banco. Hoje minhas unhas saíram correndo porque queriam chegar na frente. Hoje eu perdi um amigo. Hoje eu queria ter sido amada, ontem eu fui. Hoje foi um dia solto no meio da minha vida. Hoje eu me enfeitei e fui até o mar, me oferecer para Iemanjá. Hoje já acabou, se esgotando no meu pensamento sobre o que iria fazer no futuro próximo. E eu já fiz tudo, em um dia só, em poucos minutos.

terça-feira, fevereiro 03, 2009

A liberdade do corpo

Eu quero possuir meu próprio corpo de forma que se eu resolver me deitar no chão com amigos e amigas e fazer como os gatos fazem, eu não tenha problemas com a consciência moralista.
Eu quero possuir o meu corpo de forma que não me preocupe em usá-lo quando sentir vontade, mesmo que laços de valor tenham sido estabelecidos anteriormente.
Eu quero possuir o meu corpo e amá-lo tão apaixonadamente que não sobre espaço nem vontade de sentir necessidade de ser amada por outros.
Eu quero possuir meu próprio corpo para dançar esperando o ônibus, para vestir uma roupa de fada e ir trabalhar.
Eu quero possuir o meu próprio corpo para não ter medo dos seus limites, para não ter vergonha dos seus defeitos, para ser a casa para o meu espírito, para que eu possa crescer em beleza e não em tamanho.
Quero ter uma liberdade de movimento que seja incrível.
Quero saber imitar a elegância dos gatos e a destreza dos macacos.
Eu invejo as pessoas que têm liberdade com o próprio corpo. O meu está aqui esse tempo todo e ainda não nos acostumamos um com o outro.

EstrategistaS

As pessoas que não se expõem, que não falam o que pensam, que não costumam reagir e nunca, jamais falam sobre as suas emoções são ótimas estrategistas. Para o quê, eu não sei, talvez para a vida. Acho que essas pessoas pensam que se relacionam melhor com as outras. No entanto, eu não as vejo se relacionando melhor comigo, ou seja, a estratégia delas é visível, mas não funciona para mim. E eu nem sonho com um mundo no qual as pessoas não briguem. Um mundo sem conflitos não faz parte da minha lista de "quereres". A minha estratégia de vida e de relacionamento é tentar ser coerente com o que sinto antes de tudo, o que para aquelas pessoas é uma estratégia péssima. Elas consideram o caldo emocional como uma pestilência porque as emoções são instáveis e egoístas. Eu tento fazer do que sinto a minha verdade, e sei que não é uma coisa fácil. Mas mais difícil seria ignorar o que sinto, ou sentir o que se sinto e deixar de expressar, deixar perdido, solto, em algum lugar dentro de mim. (...) Como essas pessoas fazem, eu não sei. Para onde vai tudo o que elas não expressam, toda a tristeza, toda a raiva, eu não sei. Ou então essas pessoas não sentem tanto. Estão fechadas, estão frias, treinaram para ser uma superfície de mármore ensaboada onde as pessoas e situações deslizam sem se fixar, nem se machucar. Corações de gelo. Seria um erro?
Mas, por outro lado, estou admirando, cada vez mais, as pessoas que são como eu, e vivem essa mesma verdade. Estou admirando as pessoas que se entregam às outras, que assumem a linha de frente da batalha, que empunham suas espadas e não têm medo dos problemas que vêm com as relações, que não fogem deles e vivem os conflitos, mesmo que sempre buscando o apaziguamento. As pessoas podem ter milhões de defeitos, mas para conquistar o meu respeito basta não ter medo de olhar os conflitos de frente para resolvê-los. O medo de falar sobre os sentimentos é muito comum, comum demais para mim. Eu preciso viver algo que ninguém nunca viveu e ser a pioneira em alguma coisa, de alguma forma. Eu não posso ter medo de falar, de me expressar. Eu vivo da linguagem! Se relacionar com aqueles estrategistas é praticamente traçar um monólogo de vida. Não dá para trocar, não dá para errar e acertar. Você vai falando e vai agindo, e a expressão do rosto não muda, e você nunca sabe como as coisas que acontecem as afetam. E você continua seguindo, quase sozinho. Eu tenho como uma necessidade básica acreditar que algum nível de comunicação e de acordo podem ser atingidos através do discurso e das conversas. O silêncio faz parte de uma comunicação de sucesso, mas só é bom quando a relação está boa. O fato de saber que o interlocutor pode responder criativamente é algo que considero maravilhoso.
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Enquanto isso, na sala de controles, depois de todo esse whikas sachê, eu só queria mesmo dizer que fulano e fulano são idiotas, e que me perderam pela incapacidade de dizer o que sentiam.

quarta-feira, janeiro 28, 2009

Estação da Luz

De um lado da ponte, mistério, arte e beleza, parte da cidade que não dorme: a Pinacoteca e o parque. Do outro, um cotidiano comum, cinzento e feio de uma cidade que não dorme: cerveja, sujeira, um monte de gente e churrasco grego. No meio da ponte, em baixo, dois sentidos para uma mesma linha de trem. Depois das seis, putas e travecos ficam fazendo pose ali, esperando trabalho. Na Estação da Luz, há um piano para todos aqueles que quiserem parar e tocar. Achei isso demais, bom demais. Estímulos auditivos super agradáveis para os corpos cansados. Foi tão legal isso! É como se houvesse um piano no meio da Central do Brasil, no RJ. Imagina? Resolvemos sair da exposição que não chegamos a visitar por conta da hora para ir tomar uma cerveja do outro lado. E a experiência foi muito interessante. Paramos num boteco qualquer ali daquele lado e perguntamos que cerveja eles tinham. Foram SUPER gentis e educados, nos falaram para ficar à vontade. -O Gabriel pediu para escrever que aqui é um lugar muito legal.- Mas, gente... Senti um acolhimento que não sinto em milhões de outros lugares. As pessoas simples nos receberam muito bem. Ninguém parou para mexer com a gente, ninguém tentou nos assaltar. Eu era uma playboyzinha misturada no meio daquela gente, minha roupa e minha pele não deixavam enganar. Mas eu me senti muito confortável no meio do povo; eu geralmente me sinto assim, muito acolhida, pela realidade honesta em que vivem aquelas pessoas... E, agora, eu. Será que eu nasci para ser pobre e feliz? Será que só tenho que admitir isso para ser feliz, e parar de tentar conquistar aquilo que eu acho que eu mereço, porque na verdade não mereço coisas mas sim tranquilidade? Se ser pobre fosse tranquilo... Eu trocaria num piscar de olhos. Mas aquelas pessoas pareciam bem. E felizes. Qualquer caraoquê de bar, qualquer cervejinha, qualquer bate-papo de esquina é estimulante e alegre. Eu sou uma dessas pessoas e eu faço o intermédio entre os ricos e os pobres, porque não sou nem uma coisa nem outra. Fui criada numa família decente, e tive educação, mas o nariz empinado não acontece, e nem o conforto em lugares luxuosos e suntuosos. Prefiro o barzinho da esquina, a quadra de samba, o churrasco no vizinho. Sabe? Então, estou descobrindo. E não é maravilhoso? Hoje eu andei de trem, e foi uma experiência acolhedora. Eu sou do povo, eu sou gente, eu sou terra molhada pela chuva. Eu nasci dessa terra e para ela voltarei algum dia. Eu sou gente.

quinta-feira, janeiro 22, 2009

Chuva de São Paulo

Mp3 no ouvido, ouvindo [Hard Candy] pela primeira vez. Pensar que fui fazer depilação para esquecer minhas dores... Virilha cavada, saem os pêlos e a alma. É ótimo para acabar com qualquer que seja o seu tesão. Depois, resolvi ir caminhar. Como voltar para casa? Aquela casa escura, cheia de fantasmas e vozes. Passei pela frente do prédio e continuei andando. Vontade de comprar cigarros, mas eu não faço isso. Vontade de fazer tudo o que eu não faço. Estava frio e chovendo uma chuva fina. No meu rosto e, ao redor, um capuz cinza. Gosto de casacos com capuzes, mas o frio e a chuva não estavam me incomodando, já que se mesclavam delicadamente com o meu estado de espírito. Como entender uma pessoa que se isola e não conversa com você? O problema é dela? É seu? Você não sabe e fica confusa, e sente tesão, mas não sabe se fala ou se afasta, porque ficar em cima de uma pessoa que quer ficar sozinha é afastá-la mais ainda... Muitas dúvidas, fui caminhando e sentindo a minha dor, minha melhor amiga e companheira. Acredito nela mais que em tudo nessa vida. Fui até a Avenida Pacaembu olhar o movimento, antes que escureça e eu, mulher, perca minha liberdade. Hoje é um dia daqueles em que eu desperto o olhar de todos os homens ao meu redor, menos daquele que eu amo. Como pode ser isso? Todos olham pra mim curiosos e desejantes, eu não tenho nada demais hoje, a não ser feromônios. Mas o meu amante amado está em outro mundo hoje, e eu não tenho o endereço. A Madonna aos meus ouvidos me dá mais um pouquinho de coragem. Sabe como é, centro de São
Paulo, um prédio de fachada escura e portas fechadas, você se pergunta o que tem lá dentro. Me imagino tocando a campainha, abre um cara de terno e eu pergunto: "você tem um emprego pra mim"? Queria ser a mulher com poucas, mas lindas roupas, cabelo feito e super desejada. Queria estar nesse mundo de vícios e música, mundo de dança de pouca roupa, muito corpo, mundo do sinistro, do meu Samael. Mas eu uso uma burca, e vendo o meu rosto. Escondo o que eu realmente gosto nesses dias, porque eu sinto muito medo. Na chuva de São Paulo não vejo solução a não ser voltar para casa. Vejo o vento vindo, trazendo uma chuva que cai me acariciando e uma pena de galinha voa pelo meu dedão do pé. Ninguém me espera. Quero comprar cigarros, mas eu não faço isso. Hoje é um daqueles dias em que eu faria tudo o que não faço. Eu não ando de moto, mas HOJE eu subiria na garupa de qualquer um, qualquer um que parasse e me convidasse. Hoje é um daqueles dias.

domingo, janeiro 18, 2009

Santa Puta - Puta Santa

Com relação ao sexo, é mais fácil ser homem? Eu tive essa impressão outro dia, entrando no banho; a sensação me invadiu. Acho que eu estava um pouco revoltada com o fato de meus amigos estarem mostrando mulheres gostosas na internet pro meu namorado. Nós, mulheres, fazemos menos dessas coisas. Só me lembro de ficar divulgando foto de homem pelado uma vez na minha vida, há anos, aquela antiga do Peter Steel (Type'O'Negative). Mas fora esses casos anormais, não me lembro de ficar grudada em foto de homem, babando, salvo as do Bon Jovi na adolescência e as do Jerry Cantrel, na minha adolescência tardia. Mas eu mais suspirava do que desejava. Embora as fotos do Jerry, pra mim, tivessem o mesmo efeito de uma playboy. Era impressionante e inédito. Mas isso é comum entre as mulheres como é comum entre os homens? Eu também fico excitada com as fotos de mulheres nuas, mas algo dentro de mim despreza essa manifestação e a forma como tudo é feito. Quero saber qual é o limite entre ser uma mulher que posa nua e uma mulher consciente do seu poder sagrado. "Por que a cisão entre as duas formas?", é a minha pergunta.
Eu percebo muitos conflitos entre o meu papel sexual e a consciência do sagrado (nu) feminino. Por que existe a sensação de que preciso me resguardar porque sou sagrada? Por que o papel das santas seria o de se preservar? Por que também não posso ser uma mulher gostosa, desejada, desejável e desejante e ser, ao mesmo tempo, pura? Essa divisão é de responsabilidade da igreja católica, que colocou a mulher reservada, protegida e mãe como a sagrada e a mulher entregue sexualmente como a puta? Existe uma Maria mãe e santa e uma Maria santa que não era nem um pouco virgem.
A mulher prostituta se mostra e se expõe sem medos. A mulher santa é cheia de segredos. Por que a taça da mulher é tão menosprezada na nossa sociedade?

Meus irmãos que parecem uns lobos babões, fariam o papel de defensores da minha dignidade para outros homens, caso eu resolvesse tomar posse do meu corpo? Ou ficariam babando em cima das minhas fotos, como todos os outros homens, fazendo todos os comentários machistas e sexistas que já conhecemos?

Foi pensando no olhar masculino sobre os papéis que as mulheres interpretam hoje, principalmente esses dois (até onde uma mulher pode ser sexual sem ser vulgar, por que as mulheres vulgares são colocadas abaixo das mulheres reservadas, porque os homens só conseguem lidar com mulheres sexualmente expostas enquanto objetos, etc) que resolvi escrever sobre isso, correndo o risco de estar totalmente equivocada sobre todos os assuntos juntos. Mas, como não estou tentando dar nenhum tipo de resposta, acho que não vai ser tão polêmico.

Eu acredito no poder mágico das mulheres; nós somos as taças sagradas, o Santo Graal. Por que eu me sentiria uma puta ao me oferecer a vários homens ao mesmo tempo e por que me sentiria mal de ser confundida com uma prostituta? Por que essa divisão entre o sexo e sagrado, já que o desejo existe?
Por que eu acho que as mulheres que se expõem sexualmente são desconectadas do sagrado delas? Que história é essa de mulher objeto? O desejo é nosso, o consentimento também. Não sei por que é tão fácil e tão difícil, para mim, lidar com essa questão. Onde foi que ficou desconectada a sexualidade da noção de sagrado? Por que as orgias não podem ser santas? Por que temos medos e sentimentos de posse sobre nossos parceiros?
E a pergunta que não quer calar... Por que todas as Afrodites querem ser únicas, a única deusa mais bela do Olimpo, se somos muitas, todas e infinitamente belas?

quarta-feira, janeiro 14, 2009

Escrito em papel higiênico

Eu me olho no espelho desde que sou pequena, mas nunca me vi como me vejo hoje.
Eu estou grande. (!) É uma surpresa?!
Acho que não senti os anos passarem, acho que talvez muitas coisas tenham se mantido nos mesmos lugares por 29 longos anos. O endereço das avós, seus gostos e posicionamentos, a minha rinite, o meu endereço e telefone, os amigos de infância - não, os amigos jamais se mantiveram, nem os namorados. Malu disse que esse é o carma da família, de ambos os lados; amores que não dão certo. Sabendo de antemão que meu amor me será infiel, quero acabar com tudo já. Sabendo, prevendo a dor que vou sentir, quero acabar com tudo já. J, A. Já. o Sol. Mas esse não é o meu tigre. O meu tigre e a minha paixão são uma só: a música. Sim, eu vim salvar o Al, mas o que ele veio fazer por mim? ["The spire is hot"]
Tori Amos
Thelema
Coração partido
Astrologia
Rinite
São coisas que me acompanham há muitos anos. Minha mente é mais rápida que minha verdade. E eu desconfio antes de me conectar ao seu coração. E eu sou uma caçadora nata. E ele é um animal assutado; foge ao menor sinal de perigo.
Ainda tenho vontades... Aprender mais línguas, a cozinhar e a costurar. Também quero melhorar na música. Por que eu gosto desses homens pintudos? Não há um homem amável e fiel para mim, ó universo cabalístico? Quero completar com interrogações até o final desse rolo. Sou uma escritora em ["Building, tumbling down..."] desespero, escrevendo no primeiro papel encontrado, que é um rolinho amigo de papel higiênico, que me acompanha nas crises de rinite e mudanças de tempo["Didn't know our love was so small..."].
"TEACH ME HOW TO LOVE MY BROTHERS WHO DON'T KNOW THE LAW"
Se você me perder,
você vai sentir a minha falta
mais do que você imagina.
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Talvez eu devesse ter dito isso a todos os malditos traidores, amigas e ex-namorados. Mas esse não é o tipo de coisa que se avisa, é?
Me perca e sofra para sempre com a minha lembrança, a lembrança de mim, de luz, paz, alegria e conflito. Sim, por que não?
Aceito.
Me aceito.
Me permito. Você deveria fazer o mesmo.
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Ficar com outra pessoa, já tendo alguém, é fácil. Difícil é amar de corpo e alma. Sentir tesão é fácil, é amor de bicho; quero ver você se entregar aos orgasmos dolorosos de prazer do tamanho do universo sem temer a morte. Eu quero ver. Eu te desafio.

domingo, janeiro 11, 2009

Lata de atum para dois

Você tem uma lata de atum e quer fazer um sanduíche para duas pessoas. Se foi você quem preparou, pode ter o benefício de ser o primeiro a se servir do recheio. Se você escolhe o benefício de ser o primeiro, poderia aproveitar para pegar mais recheio e ficar com um sanduíche gordo. Mas se você já escolheu um dos benefícios, pegar mais do que a sua metade faz você sair com a alma gorda também, e você sai devendo. Mas se você escolhe pegar apenas a sua metade, sai com um sanduíche gostoso e com o ego preenchido de satisfação por ter feito a sua parte, abrindo mão de um benefício extra e egoísta para que o próximo também possa aproveitar o recheio da mesma forma que você.
O nosso mundo é uma lata de atum, para ser dividido entre milhões de pessoas. Fazer apenas a sua parte, trabalhar no seu campo energético, interferir apenas na sua própria vida, manter-se centrado em você, faz a lata ser melhor dividida entre todos.

quarta-feira, janeiro 07, 2009

7-JAN-09 (APX-5 NA)

Eu comprei o meu violão elétrico de nylon, um modesto Yamaha APX-5 NA, suficiente para cumprir minhas promessas de voz, de vida, de música. Meus amigos foram comigo, acompanharam partes do processo, há anos me escutam cantar; gostaram do som do violão também. Comprei. Estou feliz, mas preocupada. Será que vou conseguir me igualar à imagem que as pessoas têm de mim, na expectativa que temos que ser dona desse violão me leve a praticar mais e faça de mim uma cantora melhor? Eles sonham, eu sonho, o violão agora é instrumento de sonho. Eu toco, eu canto... Eu quero gravar as músicas novas. Espero que alguém se encante com elas o suficiente para me acompanhar e fazer parte do processo criativo. Eu preciso desse "mais um". Eu tento acompanhar o sonho, mas ele é muito mais rápido do que eu. Ele vai, eu fico. Mesmo que eu falhe em conseguir ser a imagem que as pessoas imaginam de mim, cantando, pelo menos, ficam os sonhos.

What will you be

Do you see that train coming in your direction? What will you do when it hits you, what will you do? It is going to hit you, for sure... Will you keep the promise of what you would be?

Can you be yourself in your everyday life, or do you dream of some parallel life where you can be what you want to be, what you said you would be?

Can you be what you want in your everyday life? It's in the dog, in the people you're with, it's in the street, in every place that you meet. Can you keep the promise of what you would be? Can you keep the promise of what you said you would be?

domingo, janeiro 04, 2009

Quando eu sinto dor, o mundo se torna demasiadamente real. As coisas são cortadas nos seus excessos e só fica o que é essencial. A consciência se amplia e a completude se apresenta de um jeito aterrorizante. São poucas as coisas que eu percebo nesse estado, mas elas são vastas, imensas. Tipo: a solidão. A consciência de que estamos mesmo sozinhos. Geralmente a sensação que acompanha é sentida nos ossos ou nas vísceras, mas eu sinto menos medo quando estou sofrendo do que quando não estou. Eu sei o que pode se apresentar. Acho que eu conheço o lado das sombras e até me sinto confortável ali. Também sinto menos fome.

Ao mesmo tempo em que eu sinto que estarei sozinha em absolutamente qualquer ocasião da minha vida, eu quero acreditar que isso é uma mentira que ficou muito arraigada, e que podemos contar com "coisas". Podemos contar com as pessoas próximas naquele momento (idealmente), e podemos contar com a nossa própria dor. Lidar com a própria dor talvez seja o princípio da percepção de nós mesmos, ou seja, perceber que somos um indivíduo com quem podemos contar. Costumamos nos isentar da nossa própria lista de pessoas com quem podemos contar. E, talvez, descobrir que somos uma pessoa dessa lista faça com que outras pessoas assim apareçam na nossa vida.

Mas a descoberta de que os relacionamentos são superficiais e horizontais, e que somos nós que agimos na vertical a partir desses relacionamentos reafirma a minha posição de que estamos sozinhos. Então, apesar das dificuldades, preciso admitir que a dor e a solidão são partes integrantes do ser.

O ano passado não fechou, assim como o novo não se abriu. As vidas se carregam. Os rituais vulgares de datas são falhos porque não abarcam o geral e são extremamente impositivos. Não há fugas para o Natal; não há fugas. Isso é extremamente real. Temos escolha? Para tudo existe um início e um fim. E me falta essa compreensão. É difícil aceitar que não temos controle.

Mas por que nós, pessoas como eu, participamos da vida no pilar da severidade, sofrendo dessa forma? Sentindo uma realidade interna e lutando contra ela, querendo acreditar em outras verdades, verdades da mente? 

Tenho dois copos ao meu lado, um de vinho e um de coca-cola. Queria uma resposta, mas não consigo decidir de que copo beber. Queria companhia para a minha escrita, mas não quero tirar as pessoas do que estão fazendo e puxar um assunto que eu não sei muito bem onde quero chegar. E não puxe um assunto quando você sabe o que podem responder, e não quer ouvir. Confrontação.

Ter uma idéia vaga do que se quer dizer é tudo o que eu tenho agora. 

sexta-feira, dezembro 19, 2008

ANT ARES

Quem mandou eu encarnar... Se eu soubesse que seria tão trabalhoso, teria feito metade nas vidas passadas. Escute bem o meu "ai...", lá no fundo. Está lá. Os anjos não são mansos e nunca foram, e essas vozes GRITAM - bem nos meus ouvidos. E eu venho falhando nos testes, e a música é como um alívio, uma água que mata a sede dos meus gritos. Gasta-se muita saliva neste corpo, nessa vida. Antes fosse beijando (saudade de beijar o amor com amor). Mas não tem trégua. Anjinhos bonzinhos? Com trompetas, anunciando as boas novas? Anunciadores que são/somos? Contestam(os). Quebram(os) as estruturas anteriores, deixando as ruínas pros outros. Suuuuper legais. Esses são os meus irmãos que ficaram do lado de lá. Trazemos a espada da justiça, e o meu trabalho tem a ver com isso, só que eu ainda não sei o que é. Esse ofício que vem com o meu dharma. Ele vem da esfera dos anjos, e eu achei que fosse a música. (...) -Uma pausa.- E, Alexandra, não mais desculpas. E não mais pedir ou agradecer amor, que é derrota. -Outra pausa.- Ver o anjo no outro é ver o anjo de todos. Você precisa trabalhar a dois, mas veio com a Estrela Alfa que antagoniza o deus da guerra (!). E ainda colocam em você um nome de guerreiro. Queria eu ser uma doce garotinha, leve e regozijante, brincando de subir em árvores pra comer os frutos, correndo atrás das borboletas até completar treze anos, e depois poder namorar de mãos dadas, ser cortejada, namorada. Não dessa vez. Mas subestime o meu 1,63m. Subestime o meu sexo, a minha inteligência, subestime qualquer aspecto do meu ser. Então você reconhece a Estrela Alfa. Mas não pretendo assustar, meu objetivo não é ficar contra você. Na verdade, eu preciso de muita paciência pois preciso virar você, vestir a sua pele, ver com os seus olhos. Ver o anjo em você é ver o anjo de todos. E eu preciso ver o meu próprio.

quinta-feira, dezembro 18, 2008

continuous


I know it's my fault it's my fault i know i have developed into something not likeable. i know it's my eyes that change, its my eyes that change when i sing from the hurt you made, i'm different. i'm not the same as yesterday, but it's even better than tomorrow cause my chords had just made me built up in confidence and now i can sing from pain, real pain, real noise in my head your words caused me to be so low in confidence, all this missing, all this not knowing, all your taking too long to decide and all my waiting. it seems like my fault, how can it not be when i know everything will always come undone for me because i probably do that, when i know i can only love the death of myself, when i know this, when i know this and i smell my own death, then i jump in any situations, like with you. love with you is death for me, certain. i know i'm a walking target for my own poisonous tail. you are like a silly twisted little wood i borrowed from the shadows of that valley. you are worth nothing, but to me you were it all. the hope for a spark, the start of a fire, the hope to keep warm in this freezing hell of emotions called world.
i hoped for it all, it all came undone before i could start that fire, because my own fire overshadowed your spark. i was a flame and you were air; you are gone and i am coming down on ashes. the floor, stick to the floor... not forgeting to breath, do not forget to breath, breath in and out, listen to your heart beat, listen to your inner cry. the hanged cat i dreamt about it was not a real cat; it was me. chocking on my own tears, the rope was too tight and i was so angry at myself like i am now, but i was trying to set it free. and, eventually i can, so how can i keep going out on swimming with sharks? --like everyday is a different fishing-- all i see is tails and bones (the bate, my mouth, the hook.) oops, this one used to be mine. just ashes now. there is no now. just yesterdays. of course there is no tomorrows, and of course there is not me

domingo, dezembro 14, 2008

Eu sou o cano da arma

Eu sou o cano da arma

Não sou a bala que perfura o alvo, nem a pólvora que se espalha pela roupa. Não sou os dejetos amorfos que caem pelo chão, cheios de sangue, nem o próprio sangue em si, que escorre como cera líquida. Não sou o calor do atrito, não sou o gatilho, não sou o dedo que dispara o projétil, não sou nem a própria raiva do ser, inquietude do dedo. Não sou um fim e nem um motivo. Não sou um objetivo. Não sou feita de algodão, nem de papel, e não derreto com a chuva. Poucas coisas podem me deter. Mas nada fica no meu caminho. Eu sou o canal que liga o princípio ao fim, mas dentro de mim, é apenas oco e escuro. Antes, eu sou fria. Depois, quente. Eu sou o canal que leva a mensagem, seja na esportiva, seja na brincadeira que acaba em desastre, seja na vida ou na morte, no erro ou no acerto. Dentro de mim, é apenas escuro e vazio.

sábado, dezembro 13, 2008

DESACREDITE

Não acredite nas verdades. O que sai da boca é sempre duvidoso. Não acredite nos "eu te amo", nos "eu sou seu amigo". Não acredite quando alguém diz que você não é, que você não pode. Mas também não acredite quando dizem o contrário. Duvide sempre de você mesmo. E se já faz isso, passe a duvidar dos outros também. Duvide de TUDO. Não acredite em nada. Somos grandes mentirosos complexos. Tente definir o que é a verdade. (Grande pausa vazia) Existe algo mais subjetivo do que a verdade? O que é a arte, senão uma tentativa de aproximação de uma verdade interior? O que é a religião, senão uma tentativa de preencher o vazio que suas verdades não preenchem? O papel da verdade não é construir. Elas são postas no mundo para que contestemos. Nós construímos; as verdades não fazem nada. Não existe nada que não possa ser destruído. Portanto, as verdades são uma tentativa de estabelecer seguranças que não existem. A única segurança vem da construção das nossas próprias verdades, que são temporárias. Quem carrega uma verdade eternamente é uma estrutura em decadência. Devemos sempre deixar espaço para o novo, para os medos, para o desconhecido, para o diferente. E viver nesses espaços, viver com medos, com inseguranças, com dúvidas, destruindo e construindo o tempo todo. A sanidade vem do caos, não da estruturação de verdades. Duvide de tudo o que eu disse e seja saudável. Mas jamais acredite na foto. Imagens e palavras não são confiáveis. Seus pés são confiáveis. Seus instintos são confiáveis. Seus medos são confiáveis. Seus sentimentos também. Mas duvide sempre para aprender coisas novas sobre você e o mundo.

domingo, dezembro 07, 2008

Arnica - tempo e espaço

Estou dentro de um caixão que é laranja, e é movido para cima e para baixo com energia elétrica. Confiamos demais naqueles cabos. Aperto o botão do primeiro andar. Me olho no espelho e vejo minha melhor amiga e minha pior inimiga, dentro dos meus olhos. A primeira jura que me ama e amará até a morte; a outra, desacredita. E dessa luta, nasce a criatura ensangüentada. Para viver melhor, acreditamos no amor das pessoas que nos cercam. E então percebo que estou sozinha. Não há ninguém ao meu redor. As pessoas que vivem na minha cabeça: confio demais nelas. Na vida prática, cedo ou tarde o ferrão encontra a pele, e me machucam. Ainda não aprendi a depurar o veneno que percorre o corpo através do sangue, atingindo partes que eu nem sabia que existiam. O veneno me ensina a profundidade do meu ser. Ainda não aprendi a achar bonita essa ramificação. [Ninguém pode nos dar aquilo que não temos. Ninguém confiante aparece para derramar em nós um pouquinho da sua confiança. Mas é muito provável que todas as pessoas que você conhece testarão a sua, porque as pessoas são sempre espelhos.] E assim vai o veneno da destruição, capilar após capilar, contaminando todas as células do corpo. Então acordo para o que há de mais real na vida: a dor, a solidão. Fico íntegra, me sinto indivíduo, não nego. Mas percebo a falta de controle em mim, no mundo. Colocamos tantas coisas importantes nas mãos de outros; nossa vida, por exemplo. Todos os dias, nos atos mais simples, nas coisas mais banais, nas mãos de médicos, de motoristas... E confiamos que tudo vai dar certo, que o amor existe em algum lugar, e que vamos chegar lá. Confiamos nos apertos de mão e nos beijos na bochecha que cumprimentam. Confiamos nos sorrisos. Pelo menos, eu sempre confiei. Até perceber como eu lido com as "quebras de contrato". Quando eu amo, não consigo ter armas de defesa. Mas se eu me defendo o tempo todo, não dá tempo -nem espaço- de amar.

quarta-feira, dezembro 03, 2008

Caganers


O Papa e o Bush são caganers. O Lula também. Eu vi um do Ronaldinho gaúcho. Todos caganers.
Achei tudo isso muito engraçado. A merda é símbolo de fonte de vida e de boa sorte (na Espanha). Talvez, aqui, nos faltem símbolos. Mas (*) não falta.

*MERDA






No thing girl



You are countryside boy and I am not an urban girl.
I am nothing girl.

terça-feira, dezembro 02, 2008

Conversa séria listrada

Hoje que eu parei em casa, me bateu aquele sentimento de vazio desesperado para consumir algo, e desesperador. É como se eu corresse dele, mas está amarrado ao meu pé e, toda vez que eu páro, ele bate em mim. TUM! O sentimento. Parece com um tédio profundo. E, talvez, seja o motivo pelo qual eu tenho vontade de beber todos os dias. "O que está acontecendo comigo?", eu pergunto em vão. Eu não sei o que está acontecendo comigo.

É uma coisa boa virar um ser único? Ser uma personalidade integrada? A Estrela central do nosso sistema é uma das poucas que não possui nenhuma companheira orbitando em volta. Quase todas as outras estrelas têm. Seria esse o carma da nossa existência nesse planeta, refletir uma estrela solitária? Ter que aprender a amar a nós mesmos, independente se as outras estrelas têm uma companheira? É a nossa sina ser um centro, um ponto único no Universo?

Me encontro incapacitada de sair e conquistar, pois não quero me inserir em nenhum tipo de padrão - and the Gods know this is crazy O.o! preestabelecido de sucesso. Ou qualquer outro. Estou quase fracassando para poder criar uma nova arte, feita através da linha da vida, a minha própria vida com as minhas marcas de alma, fora das obrigações de "conseguir". Analisando, carinhosamente, a forte possibilidade de "não ser tudo aquilo que sonharam para mim", nem "tudo aquilo que eu sempre sonhei ser".

A conversa listrada é aquela que não segue as linhas do caderno. Ela atravessa a página, porque está atravessada na garganta, indo contra a imposição das linhas preestabelecidas. O espaço destinado à escrita está lá, e eu querendo ter uma conversa séria comigo mesma, pensei que não podia obedecer aquilo. Até o caderno dita como devo conversar comigo mesma, se quiser escrever, preciso seguir os espacinhos que foram feitos para facilitar a minha vida, espacinhos que não foram pensados por mim, foram mastigados e entregues prontos. Padrões, que foram feitos para quê? Por que me incomodam tanto?

O que seria de mim se eu fosse uma listra como qualquer outra, impressa em qualquer uma das 323 páginas desse caderno? Imagina se meu destino fosse ser uma listra e NEM ASSIM eu conseguisse satisfazer alguém e completar o meu destino, porque bem na página em que eu estivesse impressa, uma pessoa com sono e sem vontades teria resolvido que, logo ali, na minha vez, não escreveria entre as linhas, mas sim, contra elas. Essa é bem a cara do meu destino. Ser uma das linhas dessa página fora de ordem, de alguém que resolveu escrever fora da linha. Fim para mim.

domingo, novembro 16, 2008

Agenda

Segunda-feira
Uma cereja podre com uma pobre alma e um triste fim, ao chão da rua suja de água de peixe do fim da feira.

Terça-feira
Cães passaram, cheiraram, pessoas chutaram... Vermes nasceram. Um passarinho veio e fez cocô em cima, o que alimentou ainda mais os vermes, ajudando a acabar com a cereja.

Quarta-feira
O caroço estava à mostra. A pele aparecia em uma das metades, já meio derretida, já meio irreconhecível, já não mais cereja, já não mais vermelha. Cor de apodrecida com poeira de rua.
Choveu.

Quinta-feira
Os lixeiros varream o caroço, que foi a única coisa que sobrou.

Sexta-feira
Não mais existiu.

Sábado
Não mais existiu.

Domingo
Não mais existiu.
.
.
.

Somente o necessário

Fale com ela somente o necessário. Ela está ali, naquele canto. Aquela sombra encolhida: é ela. Aproxime-se lentamente, mas vá avisando da porta que está indo vê-la. Sem cuidado, ela some. Ela está ali, precisa ir logo; vá rápido, mas sem pressa. Esqueça seu nome, esqueça do seu tamanho, da sua cor, esqueça as suas lembranças e vá apenas falar o necessário. Sabe qual é uma boa idéia? Tentar pegá-la no colo, no seu colo quente. Tente abraçá-la. Ela pode tentar fugir, ou vai ficar com medo da sua atitude. Talvez ela nunca tenha sido abraçada. Mas não espere reações, quem sabe ela já não está morta? Espero que não, que ainda existam chances. Tente reverter a sua situação, mas não tente se explicar nem peça desculpas. Seja sincero. Perceba que sem ela você não seria nada e, no entanto, ela está naquele quarto escuro, trancafiada, enquanto você sai pelo mundo e brilha. Enquanto ela se encolhe e treme, calando o próprio desespero, você usa sua voz para dar risadas e agradecer elogios. Perceba a diferença entre vocês. No entanto, sem ela, você não seria nada. Perceba quem é você agora. Nada. Nada. Nada para sempre quatro vezes ao quadrado, que somados, nem chegam a dar um inteiro. Viu quantos caralhos? Ela com certeza. Todas as gotas de esperma que fizeram chover lágrimas em cima das pessoas. E as lágrimas eram vermelhas, é claro. Perceba. Tente sentir o que ela sente. A vergonha, o medo, o ódio. Ela treme e você também. Agora você é ela. Escurraçado do próprio mundo, tente senti-se naquela pele, naquele chão frio, naquele canto gelado, naquele quarto escuro e com uma única janela, naquele chão empoeirado, naquele quarto sem móveis, naquela vida igual a sempre. Milênios de idade. Tente senti-la. Você agora é ela.

sábado, novembro 15, 2008

Vrischika - o escorpião

Força da consciência. Consciência forte. Tanto faz. No entanto, perceba: não significam a mesma coisa. São dois radicais; um significa força e o outro, consciência. Se a tradução for "força da consciência", indica o tipo de poder e de força que carrega o escorpião; não é força bruta, não é física. É algum tipo de força interna. Mas se for "consciência forte", indica também o tipo de vida interna que esse signo leva. Signo fixo, tende a estagnar nas suas emoções, não se mexe, não muda para poder examinar e exaurir cada questão, cada segundo da sua vida. Disseca a vida até o enxofre, resseca até o carvão. Transforma. A missão cármica para evoluir: abrir mão das memórias emocionais, dessa e de outras vidas. A astróloga védica disse isso, e disse que as marcas trazidas por escorpião são como cicatrizes na alma. As marcas são claras, as memórias também. Traições, mortes e muitas perdas que ainda ecoam nessa vida. Pois é, eu sou Vrischika. Agora, tudo se explica. A minha relação com a vida, a presença sempre forte de escorpião por trás dos panos... Agora tenho em mente: sou eu. Eu trazia isso comigo, agora vesti a armadura com o ferrão. O poder é meu, a insegurança também. Quando tudo fica difícil, abro mão. É assim que escorpião se move, ele abandona. Desiste. É a única ação possível dentro d'água. Você não tenta se segurar a nada, você deixa correr. É isso que preciso aprender. Deixar a água levar o que eu não consigo segurar, e não ficar com essas coisas marcadas dentro de mim para sempre.

Se expor ou não se expor, eis a questão.

Subi a montanha, estava nublado. Porém, fazia calor. Sem proteção e sem aviso, levei na bolsa todas as minhas questões, e fui arrastando meu peso redondo de ferro até lá em cima. Quando cheguei lá, o tempo abriu, e eu olhei o sol de frente. Queimei a cara. Peguei uma pedra e quebrei a corrente. Cuspi as questões no chão. Os gaviões ficaram por perto. Os urubus não ousaram. Esmaguei alguns poucos insetos, aqueles mais intrusos. Conversei com a minha cara metade, com a minha metade sem cara, com o meu choro. Abracei o tronco retorcido de uma árvore pequena, que tinha umas coisas esculpidas nele. Fiz xixi no matinho. Fiz o eco repetir aquilo que eu não queria dizer, mas precisava escutar para que virasse verdade. Pois é, você morreu. Mais um passado na minha vida. Vários "vocês" que viraram história foram deixados lá em cima daquele morro. Eu morro também. Mas eu não estava sozinha. No alto da montanha, podia observar a cidade lá embaixo, tão caótica, tão barulhenta, tão mal construída e tão feia, como eu, naquele momento. Meu cabelo ressecado e desgrenhado, a boca seca, o interior tumultuado, os pássaros cantando... O corpo sujo de terra e a cara queimada. Porque eu não importava, porque a vida daqueles pássaros continuava como que em qualquer dia, e eu ali, o diferente, um invasor tão pequeno que não importava. Tentei imitar o som dos bem-te-vi. Acabei virando um macaco. Eu virei um macaco. Ficam todas as marcas.
Agora, estou trocando de pele.

Meus dias de fracasso

Fracasso. Abraçar o Fracasso. Digo para ele: "agora, sou sua amiga. pode vir comigo". E vamos, de mãos dadas; um tropeço aqui, um empurrãozinho ali. Discutimos. Eu quero vencer. Mas ele me derruba. Eu quero subir, ele impede. Eu quero esbanjar, mas ele tira as oportunidades. Viramos amantes. Eu quero sair com meus amigos, mas meus amigos não me procuram. Todos os telefones estão fora de área. Apenas o Fracasso está disponível, e ele atende. Ele sempre vem quando eu não chamo. Mas sempre sei quando ele está para chegar. Sempre há chances de que ele venha, quando eu tenho expectativas. Eu espero. E, no fim, ele aparece. Sempre perto da Frustração, eles são muito amigos. Fico com ciúmes. Queria o Fracasso só para mim. Eles sugeriram um ménage. Fizemos. Eu, a Frustração e o Fracasso. Combinação muito atraente. Porém, fadada a não dar certo. Ainda bem. Ainda bem que minhas amizades são cíclicas. Assim, posso saber que ali na frente encontrarei o Sucesso de mãos dadas com a Fortuna, e eles também vão querer ser meus amantes. Deixarei... Quem sou eu para recusar sexo com a vida?

terça-feira, novembro 04, 2008

Quadro negro de carne

Risca-se com a gilete, abrindo cortes dos quais se orgulha, escreve frases na própria pele que possam revelar o seu interior. Deixa sair a verdade da vida, que é o sangue, que faz dos desenhos esculpidos ensinamentos para quem quiser ver e aprender. Esculturas líquidas. Tudo o que é escrito no quadro negro de carne é escrito com sangue e, portanto, é escrito com verdade. A crueldade com a própria pele é sentida como um carinho na própria alma; a dor ameniza o tumulto e a raiva, e as mensagens são generosidades sem tamanho aos outros vivos. Basta ter olhos para apreciar não a forma das obras, mas a alma do artista. É preciso ser um bom observador para apreciar a complexidade das pessoas. É preciso ter a coragem de um leão para fazer do próprio corpo uma cartilha.

A extensão da mentira

É mentira que a mentira tem pernas curtas. As mentiras têm pernas extensas, e correm quilômetros. Todos os filmes que começam com uma mentirinha de nada que vai virando uma bola de neve são baseados em fatos reais: a mentira embola. E vira uma verdade extensa. Um tapete de muitos e muitos metros, cheios de detalhes tecidos e de pessoas entremeadas. Quanto mais pessoas participam da mentira, maior ela fica. E a rede da mentira passa a ser infinita. Mas o ruim de mentir é que dá um friozinho na barriga... Medo de que descubram a verdade. E então, mentir vicia. E, assim, mentir vira uma aventura, vivida por quem está fazendo algo que talvez não devesse, e que definitivamente não quer contar. Vira uma travessura, uma saborosa irresponsabilidade para um dia atípico. Essa é a parte um da mentira.
A parte dois é que "mentir deixa a alma preta", como dizia o meu pai, e então é impossível mentir impunemente...
O que eu estou chamando de mentira é o que você deveriam estar se perguntando. Não assumam tão rapidamente que já sabem, por causa do conceito de cada um sobre a mentira. Ou não pensem que eu seja uma pessoa compulsivamente mentirosa, porque isso seria fácil demais. A mentira é um construto, como qualquer outro, podemos chamar também de máscaras sociais.
E usá-las é um tanto quanto cansativo, dada a necessidade.
Estou cansada de mentir para o mundo. Ficar inventando desculpas que justifiquem minhas vontades fora de hora OU ter que responder a alguém que vem lhe cobrar uma posição.
Sou obrigada a inventar desculpas que contornem a situação sem entrar num conflito direto, quando talvez, eu devesse fazer exatamente isso. Olhar o bicho nos olhos e comê-lo vivo.
Atacar, latir. Arranhar o seu focinho.
Professoras universitárias me ligando para perguntar por que eu não fui fazer a prova? O proprietário do apartamento me colocando contra a parede pintada pra perguntar por que eu quero morar sozinha? O mundo cobra uma posição. E eu não defini a minha. Quer dizer, sei exatamente a minha posição, mas para que o mundo não entre em conflito direto comigo, esse mundo prático e institucional, fico desviando por outros caminhos.
Então vocês vêem como a mentira está profundamente arraigada dentro de nós, envolvendo nossos órgãos e vísceras. Puxar a linha da mentira e ir puxando, fazer sair pelas orelhas, pela boca ou até pelo umbigo... E vamos ver no que vai dar. Eu dou notícias. Quando eu parar de ficar pedindo desculpas por quem eu sou, ou inventando justificativas para os meus quereres. Eu dou notícias.

sexta-feira, outubro 31, 2008

Objeto sujeito

Coisifique-me, me transforme em pedra, madeira, carvão, ouro, diamante ou planta. Me coloque na sua prateleira. Me transforme em lixo, reduza-me a cinzas. Julgue-me, olhe para mim de cima abaixo, meça o tamanho do meu nariz, da minha cabeça, olhos e orelhas. Olhe dentro da minha boca, examine os meus dentes. Me acaricie como se eu fosse seu animalzinho, faça eu rastejar e comer da sua mão. Me faça implorar por atenção, por um pouquinho do seu tempo. Dono da comida, que diz quando eu devo comer, quando eu devo dormir, quando eu devo existir.
Regule o ar que eu respiro, me lance um milhão de agonias, me traga estresse, faça meu coração bater em intervalos cada vez mais curtos. Me feche num quarto escuro. Me faça repetir todas as suas verdades, me faça entrar na sua pele seca e descascada e sentir as suas impressões de mundo. Faça eu calçar os seus sapatos apertados para correr quilômetros. Arranque os meus cílios para que eu não durma. Costure minhas pálpebras para que eu não veja nada. Amarre minha boca para que eu não reclame e prenda os meus braços para que eu não arranque cada pedacinho do seu corpo. Coisifique-me, me analise. Finja que somos todos desprovidos de emoções. Coloque tudo no seu contrato, e depois enfie no seu *.

sexta-feira, outubro 24, 2008

ESCOLA

Eu aprendi que você já nasce devendo, sem crédito nenhum.
E tem que se esfolar para conseguir quase nada,
e quando consegue, são quase sempre críticas de um dedo que prefere apontar que se tocar.
Somos ainda vassalos de senhores feudais,
e devemos agradecer pelo pão amassado pelo diabo. --"Cala a boca e come!", porque poderia ser nenhum.

E a revolução já começou, dentro de mim, já começou. Existem milhões de lutas, para andar pelos dias sem deixar me prender pelas mãos sujas, pelos famintos de alma. Mas essa guerra interna está me deixando doente e sem energia. E quanto mais dias vou ao mundo, menos energia tenho para a luta, quanto mais luto, menos alguém ganha, quanto mais perco, mais um dia a menos. Entende? Talvez seja de propósito. Talvez eu esteja mesmo buscando a morte. Talvez eu tenha plena consciência do alívio que ela trás. Talvez eu queira escolher. Talvez Rodrag estivesse certo. Talvez ele tenha se libertado da roda. "Talvezes" lutam dentro de mim. As células estão vivas; elas querem comer. Elas clamam pela vida.

Percebe: o que eu sei é que o tumulto que vejo aqui fora se iguala ao tumulto aqui dentro. Porque na escola não ensinam como lidar com esses trajetos? Quem vê nuvens, acordou nublado. Quem vê sol e amaldiçoa o astro, é porque está se queimando. O que está dentro é como o que está fora, o que está em cima é como o que está embaixo. Isso eles não ensinam na escola. A escola é uma bosta. A educação se perdeu tanto quanto o meu texto. E a escola é a instituição que perpetua a burrice. Ela copia e ensina a copiar, vide Estamira. E a Igreja também é uma escola, é a escola do demônio, porque ela é a religião dos homens e o inferno somos nós. Controle burro: não obrigada.

O que sai de valor desses lugares são as ovelhas desgarradas. Viva as ovelhas desgarradas.

Sofia

O cabelo é vermelho e preto. Como filha do Diabo. Minha mãe inferniza minhas manhãs e sai. Por todos os dias da minha vida, essa foi nossa rotina. O forró que o porteiro canta me acorda. Ele liga o som às alturas. O canto é desafinado como uma sirene. As panelas e pias de todas as cozinhas do condomínio se ampliam até chegar na minha janela. O cachorro do vizinho chora um choro estridente. Ele não pára. As crianças gritam, chamam pela mãe, brigam, gritam mais alto, quebram tudo. A mãe só vem para gritar, brigar, por causa do comportamento das crianças. A vizinha da casa de trás também grita com os cachorros. Ela é um dos cachorros. Ela late. O marido dela é mudo. Ela late. O marido dela deve ser surdo. Todos os outros vizinhos não são; entreolham-se das janelas, em silêncio. Por que contribuir com mais barulho? Há sempre um martelo, uma serra, em algum lugar por perto, sempre uma bateção, sempre uma briga de família, sempre uma obra durante os dias. Ainda no sol do meio-dia, tudo fica mais difícil. Se ficar em casa é não ter sossego, então acostuma-se com a fluência dos pensamentos e a buzina dos carros, o freio dos ônibus, a falação constante e inconsciente. A televisão ligada junto com a panela de pressão. A Ana Maria Braga, aquele papagaio agudo, tudo vai na panela de pressão e na comida que vai alimentar aquela casa em poucas horas. Tudo isso me causa um desespero e agonia. O Jesus na cruz está preso na porta de casa; é uma casa cristã. Engraçado como as pessoas cristãs gostam de infernizar os outros. Sempre criando infernos pessoais, sempre pedindo a Deus, nas filas do metrô, do banco... Sempre contribuindo para as coisas infernais do mundo, sempre cuspindo suas interjeições e os seus beijos pros santos. Meditação, ioga... Blasfêmia! Razão para se fazer mais barulho. Antes houvesse apenas vazio.

segunda-feira, outubro 20, 2008

LÓGICA E INTUIÇÃO

O pragmatismo é um exercício constante para uma pessoa cujo mercúrio tem traços netunianos. Traduzindo: é necessária uma dose extra de atenção para realizar a comunicação de modo claro, objetivo e direto para uma pessoa que entende a linguagem como um conjunto de símbolos, nem todos eles verbais.
A linguagem verbal pode ser enfadonha e, muitas vezes, prefiro me abster dela. O silêncio me satisfaz por completo.
A comunicação para mim não se dá em trocas de teorias e opiniões, e sim muito mais em uma troca energética, mas encontro um sem número de pessoas incapazes de se comunicar nessa língua. Até eu mesma, que seria o mais natural para mim, muitas vezes me perco nas informações, devido ao tempo imerso na língua estrangeira (essa língua falada pelo mundo).
Encontrei o motivo central da minha luta atual entre o conhecimento teórico, mental, acadêmico e o conhecimento de mundo, sentido, absorvido: é o mercúrio netuniano me pedindo atenção, ao que realmente importa. Esses dois mundos importam. Porque eu preciso obter fluência na linguagem do mundo para que eu, do meu mundo, consiga me comunicar com todos aqueles que não são nativos da minha linguagem pessoal. Engraçado estar me formando em Tradução.
A informação que sai da boca das pessoas e a informação que obtenho a partir da vibração energética dos seus corpos, a posição dos membros, o movimento de mãos, pés e olhos são, muitas vezes, dissonantes. E eu tenho acesso às entrelinhas. Às vezes, nem o emissor da mensagem tem. Às vezes, percebo ansiedades e outros sentimentos ocupando a atenção daquele que está falando. Às vezes, percebo a barreira que certas pessoas colocam para se proteger, e vejo a força que várias armaduras têm. Muitas são eficazes. Eu mesma tenho as minhas. Devido a minha consciência sobre esses fatores, muitas vezes manipulo esses detalhes no meu corpo, levando a pessoa a uma dupla mensagem. Daí que ninguém sabe muito bem o que eu quis dizer com aquilo que eu disse, daí que muita gente desconfia. É o risco que eu corro ao jogar com a linguagem, que realmente pode ser uma faca de dois gumes. Assim como pode ser a proteção; ela pode ser adequada, mas nós as usamos em tempo integral. Agimos no mundo como se nos defendêssemos. Deixamos de trocar.
Abusamos da linguagem verbal e de seus signos, mas estamos trocando referenciais vazios.
-Eu demorei mais de dois meses pensando sobre o assunto para construir essa teoria.-
O que realmente importa na troca: energia. Deixar os sentimentos vazarem na comunicação. Falar exatamente de acordo com o que se sente. (= problema no mundo do "real".) Ter sensibilidade ao falar, claro, mas não conter a energia, deixá-la fluir. Manter a comunicação em aberto, em via dupla. Falar, mas querer escutar o outro, por inteiro, não somente as suas palavras. É um abraço de corpo inteiro, não só de rostos, não só de plexos solares.
Essa é a comunicação que eu procuro.
Por isso tenho preferido me comunicar através da música. É com ela que sinto a eficácia nesse tipo de comunicação. Os referenciais verbais podem ser tão frios e vazios, porque as pessoas retiram deles o conteúdo energético. Já na musicalidade, elas não têm muita escolha. Porque a música penetra, mesmo naqueles que se sentem protegidos, defendidos e ofendidos contra os gêneros musicais. A música causa o desarmamento ou o armamento, mas isso quer dizer que a pessoa escuta.
Voilá! Mensagem construída. Que alívio!
Boa semana.

domingo, outubro 19, 2008

A doença social dos "sem-paixão"

A doença social dos "sem-paixão" é um mal que ataca muita gente. É uma doença coletiva. Há pessoas fazendo de tudo para recuperar a paixão perdida; muitas ficam viciadas em crises, outras arrumam brigas, algumas fazem coisas perigosas, e tudo para reavivar "o morto". Mas a maioria acorda de manhã e vai trabalhar, volta para casa dia-após-dia, afirmando não sentir absolutamente nada, por nada nem por ninguém. Pessoas que estão em relacionamentos mas que não conseguem tempo hábil e energia para investir em surpresas e em iniciativas legais, estão sofrendo desse mal. E a cada dia a doença faz mais vítimas, mas não há previsão de cura. As causas são muitas e o tratamento é pessoal, apesar da doença ser social.

am I becoming so boring

ontem, sábado à noite, namorado em casa, preferiu ir dormir do que ficar acordado brigando comigo; foi um final de semana daqueles... fiquei sozinha acordada, assistindo à lista das 40 músicas mais importantes na história do metal, programa apresentado pelo sebastian bach... fui que fui, da quadragésima à primeira. o momento auge da noite: alice in chains estava na lista, e o jerry cantrell apareceu falando, ao lado de uma senhora inchada e morena, chamada mike inez. álcool, minha gente... e é, o tempo passa. poucas bandas apareceram duas vezes: judas priest, pantera, guns and roses, black sabbath, iron maiden, metallica... quem mais? na lista estavam ainda: def leppard, anthrax, skid row, twisted sisters, kiss, acdc, SEPULTURA, korn ("the best band EVER named after a veggetable" - pérola do sebastian), rage against... Ah, e uma banda que cantava "balls to the wall" (O.o). Enfim: nos embalos de sábado à noite. And my life has become so fucking boring to the viewers' eyes, but I had a good time.

-às vezes o bom humor precisa vir de uma guitarra distorcida.

quinta-feira, outubro 16, 2008

Mini-conto

Estava cansada da sua vida até ali. Até que recebeu um telefonema, e sua vida mudou.

Re-presentando o passado

Oi vento quente, hum... Vem trazendo o passado. Sinto o cheiro do cloro da piscina do Tijuca. Os passos ensopados na sandália de plástico argentina e a prancha de isopor em baixo do braço dirigem-se para a Vovó Catarina, na Henry Ford. Empadão de queijo de domingo. Olhos vermelhos e irritados de cloro, roupa molhada, desconforto de calor e cansaço. Felicidade boba de um dia ensolarado num bairro conservador do Rio de Janeiro. Os mesmos morros, as mesmas cores ainda reinam. Os mesmos cheiros ainda aparecem, trazidos pelo vento.

terça-feira, setembro 23, 2008

Caroço de uva

Lá vai a menininha, dirigindo o seu carrinho... Querendo ser gente grande, achando que possui o seu mundinho. A janela está aberta. Vou oferecer o produto que ela vai comprar; de todas as frutas que vendo, oferecerei a uvinha sem caroço, vou ver o que ela fala. Coitadinha da menininha. Quantos anos será que ela tem? Não prendem seus pais por deixá-la dirigir sem ter idade para isso? Não comerá a fruta-do-conde, nem as minhas pêras. O que ela pode querer é a uvinha sem caroço. Mas que menininha mais amarguinha! Nem as minhas uvinhas ela quis comprar.

sábado, setembro 13, 2008

partindo da raiva

Lá vêm os seus tentáculos, se infiltrando em todos os espaços, tentáculos com espinhos, da bruxa do mar, se infiltrando e invadindo, todo o espaço que há, precisa ser dela. A bagunça, o caos, a estagnação... Tudo dela, mas quer que seja meu também. Insustentável. Completamente insustentável. Não há paz aqui. Ambiente intoxicante. Imundo, destroçado. Essa não é a minha casa.

lições do amor e da falta dele

Lições do amor: aprender é garantido.
Com o amor, ou com a falta dele.

Enquanto eu fico sentada aqui na minha cadeirinha filosofal, tomando esse sorvete, em algum lugar do mundo um tufão pode estar destruindo tudo. Esse nosso deus polêmico, amoral...
Que permite que eu me delicie, e enquanto gozo, enquanto sorrio, outras tantas pessoas sofrem e choram. E isso é equilíbrio(?).

Mas sinto-me desconectada das palavras escritas. Só tenho conseguido me comunicar cantando, tocando música.
*não consigo deixar de pensar que estamos, o tempo todo, passando uns por cima dos outros.

Existem mais lições do amor, garanto, mas todas elas são doídas e, para cada pessoa, uma experiência. No entanto, o sentimento de falta é de todos.

Estou sentindo uma inclinação para escrever sobre o mal, qualquer dia desses...

segunda-feira, setembro 01, 2008

segredo

Minha vida

é uma besteira

uma poeira cósmica

eu gozo quando acordo........... eu morro quando acordo............................... todos os dias quando acordo, eu prefiro expirar do que inspirar.

eu prefiro sempre me esvaziar do que me encher. estou sempre esperando, mesmo que em movimento....................................... eu odeio quando o trânsito pára.

O sopro de Hécate

Portal da sala, corredor de vento, vento frio sopra, soprando, levando meus cabelos, beijando minha face, arrepiando meus pêlos. Lembro desse frio, lembro desse gozo na dor, no passado, nas feridas antigas e abertas, nas águas paradas. Percebo todos os filhos que nunca nasceram, não só meus, mas de todas as mulheres, e que ficaram todos dentro da minha barriga e esse vento é quando eles retornam, e pairam ao meu redor. A presença das almas, de tudo o que já passou mas que eu me recuso a deixar ir, a presença de todos os amados que nunca puderam ser carregados próximos ao coração. O leite que nunca jorrou não jorrará também durante o inverno. Nada vai florescer pelos próximos dias. Ela engoliu uma única semente. Foi só o que foi preciso. A semente que não explodiu, a fez viver no inferno. A semente que não germinou, a deixou presa e fez com que a terra toda secasse. Todos os sentimentos não passam da garganta. Tudo mais ficou intragável. Todas as sementes geradas pela imaginação fecunda não pesariam tanto. É um espinho de amor, preso ao coração, que a faz sangrar eternamente enquanto os dias passam e o sol ainda existe. E ela só vive à noite, pois é quando o frio aumenta que o peso diminui, e que ela consegue respirar.

quarta-feira, agosto 27, 2008

Hoje eu vou matar aula

Hoje eu vou matar aula. Tenho que entregar o artigo final da iniciação científica, já que a apresentação é amanhã e só hoje, véspera, é que terminei o bendito. Terminei não; desisti dele.
Parece chato e foi muito chato. Imagina escrever e reescrever essa chatice por um ano! Mas eu consegui fazer isso de manhã, e daria tempo de ir, só que não quis. Adoro usar as minhas desculpas.
Fato é que se eu não for à aula, não vou encontrar a Bárbara, e por uma coincidência incrível como no blog letra "J" (Fim de Tarde), eu adicionei o blog dela à lista de blogs à direita. Nos conhecemos há algum tempo; ela namorou um amigo meu de infância; ela é de sagitário, que é meu ascendente, e foi parar lá na minha faculdade. Igualzinho como no conto do Jhonas. Só que nunca mais paramos para conversar. Ela senta lá na frente e participa das aulas, enquanto eu sento lá atrás e quero morrer.

Mas amanhã, depois da minha provação iniciática (foi mais fácil entrar dentro da caverna escura lá na Floresta da Tijuca), vou sentir uma certa leveza novamente, e um gostinho de LIBERDADE. Iuhu para mim, iuhu para nós.

sábado, agosto 09, 2008

A Busca


Quando pararmos de procurar o que já sabemos não existir, quando estivermos *absolutamente-convencidos-inteiramente* de que aquilo que tanto queremos não é possível, no que a vida se transformará? Quando pararmos de procurar a completude e a plena satisfação, não por cansaço, mas por convencimento, estaremos olhando para o quê?

Quando (simplificando) homens e mulheres pararem de procurar aquele "special someone", o que estarão fazendo? O que estarão buscando? No que estarão empregando o seu tempo?

Olha, ficamos submersos em TRABALHO (e eu coloquei a caixa-alta para ser uma caixa mesmo, cúbica, na qual nos encaixamos), e damos às nossas vidas esses dois significados: produção ou busca. É mais fácil seguir com o trabalho. É cansativo e sem sentido, mas é mais fácil porque, dia após dia, acordamos e fazemos, sem pensar. Mas mesmo sabendo que a completude dada por outra pessoa não existe, insistimos em continuar procurando. A emoção não obedece ao que já sabemos. Ela anseia e talvez até se alimente da dor provocada pela frustração (everytime) da mentira que acreditamos de que alguém nos completaria. Nossas avós juram que no tempo delas dava certo. Estou muito enfática? Não é essa a busca secreta de todo ser humano? Uma fusão satisfatória com qualquer coisa?

Eu dou voltas com a língua e com os pensamentos, porque os sentimentos estão em mim, me movendo. Eu acordo todos os dias movida por essa grande insatisfação e pelo gosto na dor de ser frustrada, e, por isso, me coloco a buscar, todos os dias, por algum segundinho de satisfação, mesmo que na dor.

Que os outros pássaros cantem canções diferentes da minha, ao menos. Que nos outros céus haja arco-íris. Que outros corações estejam cheios de sangue, pulsando em uma só direção. Que nem todos os destinos sejam esse da frustração e insatisfação... Mas será que mesmo isso vai se provar uma mentira?

Indicador apontou o passado


Lá se foi minha unha preta, ensangüentada, sangue duro feito pedra, sangue de quem vive na cidade, de concreto, sangue de piche. Lá se foi, mas eu a guardei, enroladinha em uma gase. Tudo o que é meu ou que um dia foi, símbolo de alguma coisa importante, eu tenho mania de tacar no fogo. Mas um fogo cerimonial. Sabe? Por exemplo, fotos de pessoas, pedaços meus, essas coisas. Coloco tudo no fogo. O fogo é uma excelente arma contra o fogo, sabe? É verdade.

O que mais que é verdade? Muita gente estava achando o meu dedo no-jen-to. Não sei também como; me pergunto. Esse dedo, apesar de ter sido resultado de uma intensa dor acidental e, no entanto, freudiana, estava me trazendo um orgulho absurdo. A única pessoa malhada como um gato. E, de uns tempos pra cá, tinha aparecido um buraquinho nela. Dá pra ver, na foto, como se fosse o olho branco do feijão, dá pra ver? Aquilo é a minha outra unha crescendo por baixo.

Pois é, os ciclos naturais... Estava esperando que ela caísse, mas chegou um dia que metade dela estava livre, e a outra metade presa, e eu fui chamada a tomar uma decisão: "escuta, você prefere ser lançada ao acaso e à sua falta de cuidado consigo mesma e sangrar desavisadamente, ao procurar algo dentro da bolsa, ou você prefere ir consciente a um médico e dar um jeito nisso"? Eu resolvi dar um jeito nisso. Continuo achando que eu deveria ter colocado apenas um band-aid. Resolveria o problema temporário e deixaria o fluxo natural agir. Mas eu nunca fui boa em deixar as coisas simplesmente acontecerem.

Ainda essa semana, estava perguntando a uma amiga por que nós gastamos um tempo enorme e tanta energia planejando coisas para sempre fazer diferente do que planejamos? É como se precisássemos da segurança do plano para poder ser a força contestadora, e ir contra si mesmo. É muito louco isso. Uma força rebelde que perde tempo tentando se organizar, se planejar... Incrível perda de tempo. Mas incrível mesmo, de arrancar sorrisos dos nossos rostos, de tremenda loucura. Eu não sei mais do que estou escrevendo. Baixei o cd da Linda Perry, e me deu vontade de escrever. O ponto alto do meu dia hoje foi: ir ao ambulatório cuidar do meu dedo, que eu achei que estivesse inflamando. A falta de inflamação no coração com relação à minha própria vida, aparece no dedo que indica e aponta os caminhos, não é mesmo? Como seria diferente. Aí, antibiótico. Aí, curativo. A ferida se fecha para a vida, para o novo.

Mas não foi para vir o novo que eu tomei a decisão de arrancar o velho?

terça-feira, julho 29, 2008

Yngwie Malmsteen

Achei uma fita com o "The Seventh Sign" gravado, com o encarte escrito na letra de mão de um ex-namoradinho, guitarrista (duh). Cabeludo (DUH!). Juro que pensei em jogar fora; mas antes eu coloquei no som. Estava bem na música "The Seventh Sign", ".... we are making Lucifer so proud..." Haha, muito bom! Vou contar um segredo: eu tenho esse cd, e gosto dele. Então, não faria diferença ficar ou não com a fita, a não ser pelo fato de que ela me levou de volta a essa época de aproximadamente 12 anos atrás. Quando eu era uma criança das trevas, e andava pelas ruas acreditando que era às 18h que meu corpo acordava, e esperava um vampiro vir bater na minha janela, me trazendo a vida eterna. Eu queria a imortalidade através do laço de sangue, sempre acreditei nisso quando era mais nova. E a fita me fez lembrar das noites em que a breguice dos acordes piegas do Malmsteen eram perfeitamente cabíveis dentro de um quarto escuro, no meio de uma pegação leve com o namoradinho, aos 14 anos. Aquele "rush" de estar apaixonadinha, e começando a descobrir as coisas da vida, aqueles solos de guitarra misturados com beijos molhados e quentes, nas noites de verão do Rio. E depois nas de inverno. Essa sensação não volta. Muitas esperanças estavam à frente. Pareciam estar. E as camisetas pretas, de banda, e o pessoal de banda que andava com a gente. E o cheiro das amendoeiras da Tijuca, e as lojas de cd, e as horas gastas andando de um lado para o outro. E os ensaios. Muito legal. Me deu saudades.

sexta-feira, julho 04, 2008

Os pensamentos e o corpo pesam

Antes que todos pensem que sou infeliz no amor, quero deixar uma coisa bem clara: não sou. Sofri um pouco com a morte do amor romântico, mas isso já tem tempo e foi um rito de passagem que levou à uma percepção bem legal; a única completude que posso procurar (e talvez, até encontrar) é comigo mesma. E essa fusão com esse "outro" que tanto procuramos, é uma fusão para curar a nossa fragmentação interna. Não sei se, de fato, essa junção dos pedaços é mesmo possível. Nossa sociedade reflete o oposto; somos fragmentados e múltiplos, e talvez that is the way it should be. You know? E então, a procura não seria por juntar os pedaços e nos tornarmos unificados, mas aceitar a multiplicidade e aprender a trabalhar com ela. Em todos os níveis.

Minha faxineira estava aqui dizendo que a bíblia prevê o resfriamento do amor, que é um dos sinais do fim dos tempos. Realmente, parece que o amor tem escapado mais vezes do nosso mundo para outros... Mas ele ainda está presente. Mesmo que, cada vez mais, existam casos de mães que matam seus bebês, e outros casos, igualmente horripilantes. O amor ainda está por aqui. Escasso? Não sei. Como escrevi há alguns posts abaixo, talvez seja a nossa percepção de amor que mudou; talvez ele use máscaras agora. Talvez ele seja múltiplo e fragmentado, de forma a podermos encontrar um pedacinho de amor a cada esquina, no cantinho da rua, jogado fora, abandonado, porque as pessoas não o reconheceram como tal.

Pensar enlouquece? Eu acho que pensar pesa. E cansa muito essa exigência de produção acadêmica e profissional. Apesar de internamente eu ser muitas, em corpo sou uma só e esse corpo se cansa de ter que se carregar para atividades múltiplas, que exigem que eu me entregue completamente, louca e apaixonada, a cada uma delas. Como de amor eu vim parar em produção acadêmica eu não sei. Mas é uma questão quente no momento. A da produção acadêmica. Estou em vias de fechar a pesquisa de iniciação científica; de férias das aulas, mas iniciando uma nova etapa a partir de segunda-feira. Que idéia minha pegar estágio nas férias. "Bem-vinda à vida adulta, Alexandra", escuto Saturno dizendo. Saturnão... Eu sei que é você por trás disso tudo.

quinta-feira, julho 03, 2008

Fora de área

Então... Pensei em várias coisas para escrever nesse post. O Fluminense perdeu ontem --quando eu, que nem gosto de futebol, tinha acabado de decidir que era tricolor (já que parece muito mais fácil responder "Fluminense!" ao invés de ficar explicando que não tenho time, porque não curto futebol, nheé-nhé-nhé etc). E "fora de área" até invoca esse assunto, mas eu quero falar mesmo sobre a minha conta de telefone celular. Cada mês vem mais alta. Eu AMO dizer os meus passos aos meus queridíssimos amigos, amo sentir o cheirinho de árvores da minha rua e ligar para minha vovozinha para compartilhar isso com ela; enviar mil beijos de bom dia quando acordo pensando em alguém e ligar pro namorado de 30 em 30 minutos minutos para conversar sobre algo importantíssimo, mesmo que passageiro...

Mas minha gente, não vou poder mais! O que é a CLARO me cobrando R$146, 02 para eu manter a minha vida social e o meu fluxo de comunicação com as pessoas que eu amo?!

Meus amigos valem muito mais, mas a Claro não vale um tostão. E mesmo que valesse, eu não tenho como pagar tanto. E ODEIO pagar por serviços tão mal prestados!

Gente... E tem outra coisa. Quem a revista Playboy acha que é, para ficar oferecendo cachês de um milhão de reais para as mulheres pousarem nuas? (É que sem querer eu vi a Luísa Tomé falando sobre isso hoje no programa daquela top model, Ana "Homem-soluço/chupão", enquanto eu esperava impaciente na sala da ultrassonografia que eu ia fazer do meu dedo machucado.) Eu juro que estava tentando ler "When is a translation NOT a translation", da Susan Bassnett, para a minha reunião de pesquisa, mas a tv estava em CIMA da minha cabeça. Quase que literalmente. E isso foi uma coisa que me indignou também. Por mais que uma mulher tenha princípios e morais muito bem estabelecidos, se ela for FODIDA de grana, como vai negar uma oportunidade assim? "Olha, minha filha... Você não precisa fazer muito, tá? Fica parada enquanto a gente penteia os seus pentelhos, passa um batonzinho e faz uns bicos bem sexy, enquanto a gente conserta seu corpo e deixa vocÊ linda!" - por um milhão de reais (?????????)!

1) É só um corpo nu. 2) Oferaçam esse dinheiro para o meu porteiro pousar nu! Ele precisa dessa grana, como muitas outras pessoas, precisam. E aposto que elas trabalhariam por isso! 3) Caralho, a mulher é mesmo reduzida a NADA em todas as sociedades. E isso me mata.

quarta-feira, junho 25, 2008

Vezes perfeitas

"O corpo envelhece", pensei. "Por que não somos feitos de outro material, como plástico?" Mas depois, me dei conta que em outros materiais, alguns danos são para sempre. Imaginem o rosto de plástico em contato acidental com fogo ou ácido. Mas depois, percebi que nosso rosto também derreteria. Só que nossos machucados cicatrizam. E essa foi a pólvora da semana: a percepção de que nosso corpo se refaz. Não só as lagartixas possuem esse dom maravilhoso, nós também. E (quase) todas as nossas células se reconstituem. E isso não é maravilhoso? Eu achei. Toda a vida se renova, o tempo todo, e a gente nem percebe. Somos imortais, nesse sentido. A vida achou um jeito de fazer a alma viver mil vezes; o corpo morre, mas depois ele renasce. Quantas vezes for preciso. Quantas vezes forem perfeitas. Nossos pais morrem, mas vivem através de nós, das nossas células. A vida parece que começa e acaba, mas ela é um ciclo perpétuo. Achei isso tudo maravilhoso. Não tenho motivos para não ser feliz; o ser infeliz que havia, morreu. Hoje, sou alma em um corpo novo. Eu renasci.

sexta-feira, junho 20, 2008

Mais de um amor


Com relação ao amor, temos um problema de tradução que levou a um problema de idealização do amor e, por consequência, da sua prática. Falamos em amor e logo pensamos no amor "homem-mulher". Só há uma palavra para amor, mas existem vários tipos dele (fraterno, carnal, materno, incondicional, etc). E se existem vários tipos de amor, é muitíssimo provável que também existam várias formas de amar. E como expressar esses vários tipos de amor e as várias formas de amar nas culturas onde só existe uma palavra para amor? A paixão, mais um tipo de amar, fica parecendo uma rival, uma antagonista. Onde há paixão, não há amor. Mas como? É só mais uma forma de amar.


E isso leva a várias outras questões... Por que amor entre homem e mulher, se existe amor entre homem e homem, mulher e mulher, mulher/homem e criança, mulher/homem e grupo, mulher/homem e deus, etc?


Os gregos sabiam mais? Porque tinham várias formas/palavras para definir o amor, também tinham, explicitamente, mais formas de amar, que não restringiam o amor a um só papel social?

Qualquer visita à Wiki mostra que o amor pode ser Eros, Pragma, Philia, Storge, Agapé, etc.


Quanto mais maneiras de dizê-lo, mais existe a sua presença, mais a possibilidade de exercê-lo. E se alguém diz que me ama, a que forma de amor devo atribuir esse amor? Hoje eu pensei que o amor não existe, quando restringido. Que amor institucionalizado é amor morto. Que restringir o amor é um erro, um defeito nosso. Por isso tanta falta de amor na nossa sociedade, por nós mesmos e pelo próximo. Que a igreja teve um papel horrível na divulgação do amor através da bíblia. Mas aí percebi que existe vida dentro do vaso de planta, dentro do aquário, dentro dos apartamentos, dentro da cidade, dentro do planeta.


Ainda assim penso que restringir o amor é pecado. Mas não conseguimos conceber a idéia do amor livre, do amor incondicional, do amor por todos os seres por igual.


Ainda queremos eleger um único ser amado, como símbolo de todos os tipos de amores possíveis, e forçar a manifestação de todos os seus tipos em uma só pessoa, mesmo com todas as infinitas configurações existentes; fiquei triste. Por eu mesma, sabendo disso, não conseguir exercer o amor infinito, o amor livre, por todas as coisas, por todos os seres (mesmo aqueles que machucam intencionalmente), pelo sexo fora do casamento, pelos meus irmãos e irmãs, pelo diferente, pelas bênçãos e pelos cânceres.


O amor não pode ser restringido. O amor deve ser liberado. O amor por si próprio, o amor aos deuses, o amor à natureza, o amor pelas pessoas. Deve ser compartilhado. E como abrir nossas compotas cerebrais para receber todo esse amor que existe à nossa volta, quando estamos tão acostumados a nos fechar para ele?

A parede de gelo

O quanto o fogo de uma vela pode derreter de uma parede de gelo? O fogo que carrego em mim, que antes parecia queimar com uma força que poderia incendiar um prédio inteiro, agora parece ser carregado do lado de fora, como dependente de cera e pavio, sujeito a se extinguir ao menor sinal de vento. E isso tudo parece tão errado. Pareço sempre estar ao contrário. Existe uma rebeldia inexplicável, que faz com que eu me recuse a encarar o medo do frio embaixo de neve e árvores ressecadas. Não me vejo passeando perto de nenhum lago congelado, sob a chuva, perto de um cenário todo branco, sozinha com um piano, mas sozinha no topo de uma montanha, com toda a vida aparecendo lá embaixo, rios e animais correndo, e eu observando. Toda a vida passa, e o mais próximo de mim que existe é a pedra sobre a qual me estendo. E faz sol e o céu é azul.


E existe a percepção de vida, e existe a sensação de pertencimento quando estou no vazio, mas quando me incluo e me relaciono, parece existir uma parede de gelo que me separa de todas as situações e pessoas, e faz com que eu esteja posicionada acima de todas as coisas. Rapidamente me volto para a posição de proteção; o alto da pedra. Para o alto da pedra, para a reaproximação com as importâncias da vida. Se ao menos eu fizesse parte delas... E me vejo assim, inclusa no sistema, ao estar sozinha e tão perto da imensidão. É entre as partes pequenas e segmentadas da vida que sinto perder o controle, que me perco de mim mesma e fico tentando trazer esse sentimento de santidade para perto da vida de todo dia. Aquele fogo que antes só queimava no meu coração, agora está nas minhas mãos e é visível. E não pode derreter paredes de gelo, mas pode ser visto como uma opção ao frio. E faz com que eu me lembre das importâncias da vida. Mesmo que eu esteja sozinha, o sopro de vida sempre estará comigo. E com tudo aquilo que me cerca. Mesmo que eu não saiba lidar com isso e saber que, no fim das contas, estar sozinho é uma coisa boa.


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quinta-feira, junho 19, 2008

El corazón de dios




O coração de deus. Foi o que nos falaram. Velas e flores brancas, altares pessoais, horas sentados em roda. Madrugada fria de vento quente. Muito vento que balançava a copa das árvores ao redor do clarão e fazia barulho de tzunami. Muito barulho, muito vento, muito fogo. Cântico xamânico, mais de 8 horas seguidas. Velhinho pequeno, mas enormemente forte. Ele e sua Ana. Insetos em alguns momentos. Começaram a aparecer no ritual. Na hora da limpeza mais pesada, baratas voadoras. Com suas anteninhas repugnantes, passeavam por alguns altares. Felizmente, respeitaram o meu. Talvez por conta das minhas duas flores, que posicionei como dois bastões no altar, em cima do meu diário mágico. Muitas fotos embaixo. Lua crescente, quase cheia, e lua em escorpião. Seria motivo para um ritual intenso. Intenso sim, porém, não me levou para dentro. Serviram a medicina. Provei. Tinha gosto de chá verde, concentradíssimo. Não consegui tomar muito mais vezes. Repeti, mas foi tudo. Serviram mais de oito. Mas era mesmo uma medicina. Abertura para a limpeza. Por que um ritual de limpeza? Eu gostaria mais de celebrar o grande espírito. Não me considerava suja. E não devia estar muito mesmo, porque as baratas pularam o meu altar, como eu disse. Experiência muito interessante. Índios da tribo Huichol, México. A flor era para colocar no lugar do coração, para fechar as feridas. As minhas eram duas: uma angélica e uma rosa branca, tipo exportação. "El corazón de dios. Ponga em tu altar", foi o que ouvi, algo assim... Eu vi muitas coisas. Além dos insetos e das coisas cuspidas pelo marakame -ah sim, porque ele sugava a energia do altar, da sua aura, e das palmas das suas mãos durante a limpeza, às vezes sugando também dos olhos e da boca- e cuspia coisas depois. Em algumas vezes, com mais nojo do que noutras, e ia para o mato banir. Na maioria das vezes, cuspia pedras de diferentes cores e tamanhos, mas também podia cuspir insetos e pedaços de objetos. Vi se repetindo as minhas questões movidas pelo inconsciente, agora mais claras. Desconfiança, sensação de não-pertencimento a grupos e situações, crítica ferrenha, etc.

Nenhuma solução, só apontamentos. Por sinal, estou sem apontar nada por esses dias. Meu indicador esquerdo está em um retiro espiritual para cura, envolvido em algodão com arnica. Uma roda da medicina verde. Ele foi, e espero que, ao voltar, me ajude a não mais apontar, mas indicar, talvez, caminhos melhores. Não é? Para mim mesma e meus arredores. Prendi entre as portas deslizantes do armário, entre as partes de alumínio, dois dias antes do ritual. Tadinho... Agora que ficou feio, está recebendo mais amor do que NUNCA. De repente, antes de clarear (lá para as 4 da manhã), o cântico parou: "buenos dias!", ele disse. "Estoy mui cansado! Cantem, cantem..." E começaram a bater nos tambores e chocalhos, cantando cânticos xamânicos. E assim amanhecemos. Sol lindo que nasceu. O dia acordou rosinha. E tinha cachoeirinha depois. E num altar vizinho, repousavam sobre uma carta de tarô chamada "união"; uma mariposa rosa e uma esperança grande.

quinta-feira, junho 12, 2008

Valentino



Hoje parece o dia perfeito para eu escrever isso, Valentino. "Ó querido, ó querido, ó querido Valentino". . . Hoje parece mesmo o dia perfeito, porque vou escrever antes de encontrar você. Vamos nos cruzar por aí, naquele local que combinamos, naquela hora marcada... Meu Valentino. Anda por aí, sozinho. Mas é muito pontual. Vai chegar na hora certa. Está no trabalho, claro. Porque não quero amor numa cabana. Viver de "sol e sal" no me gusta. Mas se lembrou de fazer a barba. E levou o desodorante, para ir me encontrar direto depois do trabalho. E tomou banho antes de sair de casa, isso com certeza! Meu Valentino... Comprou o presente com 15 dias de antecedência, porque sabia que não teria tempo depois; ele se preocupou há tempo. E como sabe exatamente o que eu gosto, ou gosta do que se parece comigo (das coisas que são bonitas), foi muito fácil para ele encontrar mil presentes, dos quais escolheu um para a data. Só para que eu lembre do quanto ele me ama. E levou o perfume que eu gosto para o trabalho também. E os meus presentes. Ah, e ele planejou uma surpresa! Mas antes, vamos jantar em um restaurante bem gostoso. Ainda bem que ele detesta, como eu, aquelas declarações feitas com auto-falante e bolas coloridas... Que vêm em automóveis, sabe? E uma outra pessoa fala um textinho pronto em um microfone, sabe?

Não... Meu Valentino não faria isso comigo. Ele sabe que eu gosto de improvisos sinceros. E sabe exatamente o que eu espero, se preocupa em realizar todos os meus sonhos secretos. Só que os meus sonhos secretos são tão simples! São sonhos secretos de atenção e carinho. E ele sabe disso, e acha muito fácil me agradar. E adora.

Para você, Valentino. Com amor.

quarta-feira, junho 11, 2008

letting go of marion

कर्म

i'm going to display your picture in my personal altar. the altar every person in the ritual is going to put together. i need closure in my life relating to her. you know? so we can move on. she already did, and so did i, but something still connects me to her. why would that be? i still don't know. some stupid pattern, that keeps repeating itself. it's not even personal. it is a battle i fight with myself, and everytime i fight her instead of looking at myself. shame on me... maybe you are just a dream. but anyway; there will be other people there too, to keep you company. other people that are important to me, even if i don't mean anything to you, with a candle, and a white flower. so everybody is good aftwards. don't worry, it is not black magick. you know i don't believe in that. or else, i do believe, but i like to gather positive karma, not to destroy it. i'm planning to retire soon from planet earth. when i'm old enough, when i have solved enough matters. don't worry. we'll be good. letting go of marion, a noisy butterfly.
that is all.

love,

Rosamund Stacey.

Até a boca

Até a boca, as garrafas estevam cheias, para matar. Sede até a alma. Acreditei em mim mesma, que encheria três garrafinhas para deixar ao lado do computador, para matar a sede sem me levantar, enquanto estivesse trabalhando. Mas sou uma pessoa que enche três garrafinhas por um motivo, e depois uso de outro jeito. À noite, antes de ir dormir, levei uma para o quarto; depois de manhã, ao sair para a faculdade, levei outra na bolsa, deixando apenas uma sobre a mesa do computador. Agora posso parecer uma pessoa menos interessada em ordem. Até que então... A sede bateu. Neuroses até o pescoço, palavras até a língua, garrafinha ao alcance dos dedos... Mas medo. Não quis bagunçar a beleza daquela garrafinha cheia, filha única, bela. Cheíssima, até a boca. "- Cadê as outras, já bebidas?" Rolou um medo de instaurar o caos naquela garrafa tão em paz. Porque se as outras já estavam pela metade, faria mais sentido terminar o líquido daquelas antes (não é?). Mas eu estava com sede agora, e as outras estavam longe. E o propósito era não me levantar. Esse é o mesmo princípio de ter várias roupas lindas que eu amo, todas guardadas no armário, e que tenho pena de usar porque vão gastar. (Mas gente, não é para gastar mesmo? A água não era para matar a sede? As roupas não são para me deixarem bonita, bem arrumada, como gosto? Para que esse monte de dedos com as coisas? Para eu morrer, e as coisas permanecerem como uma lembrança "do que um dia poderiam ter sido, e que não foram".) Abri a garrafa e bebi. Mas que culpa de perturbar aquela paz. A sede morreu temporariamente, mas as questões transbordavam na minha cabeça.

sábado, junho 07, 2008

Gelatina

Eu renasci afastando gelatina vermelho-translúcido com as mãos. Eu que quis nascer. Ninguém me pariu. Me identifico com a criatura de Frankeinstein. Parece uma mistura ruim; gelatina de sangue, gelatina de carne, gelatina quente. Esqueça o sabor morango, o geladinho refrescante. Será que posso dizer que sou real, sabor natural? Ninguém me pariu, e depois, ninguém me parou. Estar parada no engarrafamento ouvindo o The Fragile. Batendo no volante, balançando a cabeça. Aquele sentimento acelerado, de quem está em primeira e não suporta, de quem quer pisar fundo, mas está presa ao trânsito. Pensando em como fico descompensada pensando em você. Aquele sentimento de ser impossível. Impossível ir pra frente, pra trás... Querendo descobrir a essência de um universo sem essência, querendo chegar próxima ao intangível. Querendo reformular um eu que está cansado de ser si mesmo e ser os outros. Separar a fórmula; água para um lado, pozinho vermelho para o outro, depois de misturado, depois de congelado, depois de pronto. Outro dia descobri um porquê; quanto mais rápido ocorre a transformação dos compostos em uma explosão, mais forte ela é. E eu, caros amigos, explosão atrás de explosão, semana sim-semana não, estou em pedaços porque minha composição muda tão rapidamente! Não há fundo, como o fundo do pote; não há chão para a fumaça que sobe. E o que é feito da fumaça que sobe?

E essa noite, sonhei que estava em um avião, e que dizia para alguém que morria de pavor daqueles momentos enquanto está subindo, e quando vai descendo. Aqueles momentos que confundem o labirinto, nos deixando tontos.

Horses

I look so darn good in blue. Wish I did not look so good in blue. Bl u u u u u u u u u u ue.
I am amazed. with myself. to realize how far and how deep i go. everytime we have. a major fight .like the last one. And how long I take to feel well again. to dance upon the stars. in the night sky. not so blue once you're there... black and empty, and silent. horses take me where your demons cannot go. there. counting your bees on me. i can't go, you said so... i wish i did not break so easily. but i do. break so easily. and i can't believe this. I almost regret entering relationships; and i am almost giving myself up. and i just can't wait to not be the center again. because i heard brian molko saying that he's the product of a broken home, "forever black-eyed", and i sympathized... a couple of days ago... but i do think those are all lies i told myself in which a keep believing. and i am oh so tired. there is no essential truth, no truth within. I can change the pictures of my past and the images of the present, but i just don't know how to do it.